Questão nº 48
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 48)
Atenção: As questões de números 41 a 48 referem-se ao trecho que segue.
Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.
Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.
Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.
Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.
No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).
É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.
Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.
Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.
Em a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente (parágrafo 6), o pronome átono destacado está adequadamente empregado, pois está em posição sintática em que não exerce a função de sujeito da oração. Seguem frases com o mesmo pronome, acompanhada cada uma de breve referência a seu emprego. Há avaliação INCORRETA em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 41, questão nº 42, questão nº 43, questão nº 44, questão nº 45, questão nº 46, questão nº 47.
- AO desafio se nos apresentou muito maior do que imaginávamos. / Objeto direto, com valor de "diante de nós". (alternativa correta)
- BAtribuímo-nos vantagens que não são devidas. / Reflexividade da ação; objeto indireto.
- CDemo-nos uns aos outros calorosos aplausos. / Reciprocidade da ação; objeto indireto.
- DEscolhido entre tantos, nos comportaremos à altura da responsabilidade. / Plural de modéstia.
- EVocês nos são tão agradecidas, mas somente cumprimos nosso dever. / Complemento nominal.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Pronomes oblíquos átonos (como "nos") são palavras que substituem substantivos e funcionam geralmente como complementos verbais (objeto direto ou indireto) ou como parte integrante de verbos pronominais. Raramente, podem atuar como complemento nominal quando substituem uma expressão preposicionada que exerce essa função.
(A) Correta: Na frase "O desafio se nos apresentou muito maior do que imaginávamos.", o pronome "se" funciona como objeto direto reflexivo (o desafio apresentou a si mesmo), e o pronome "nos" funciona como objeto indireto (apresentou a nós). A avaliação de "nos" como "Objeto direto" está incorreta, tornando esta a alternativa a ser marcada. A armadilha da banca reside na presença de dois pronomes átonos ("se" e "nos"), levando à confusão sobre a função de cada um.
(B) Incorreta: Em "Atribuímo-nos vantagens que não são devidas.", o pronome "nos" é objeto indireto e indica que a ação de atribuir vantagens é feita a nós mesmos, caracterizando a reflexividade da ação. A avaliação está correta.
(C) Incorreta: Em "Demo-nos uns aos outros calorosos aplausos.", o pronome "nos" é objeto indireto e indica que a ação de dar aplausos é feita uns aos outros, caracterizando a reciprocidade da ação. A avaliação está correta.
(D) Incorreta: Em "Escolhido entre tantos, nos comportaremos à altura da responsabilidade.", o pronome "nos" faz parte do verbo pronominal "comportar-se". A referência a "plural de modéstia" descreve a intenção do emissor ao usar o sujeito "nós" (implícito), ao qual o pronome "nos" se refere, e é uma descrição válida do contexto de uso, mesmo não sendo uma função sintática direta do pronome. A avaliação está correta.
(E) Incorreta: Em "Vocês nos são tão agradecidas...", o pronome "nos" substitui a expressão "a nós". Como "a nós" seria um complemento nominal do adjetivo "agradecidas" (agradecidas a quem?), o pronome "nos" assume essa função. A avaliação está correta.
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.