Questão nº 42
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 42)
Atenção: As questões de números 41 a 48 referem-se ao trecho que segue.
Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.
Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.
Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.
Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.
No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).
É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.
Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.
Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.
O texto legitima a seguinte assertiva:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 41, questão nº 43, questão nº 44, questão nº 45, questão nº 46, questão nº 47, questão nº 48.
- ACertas ideias que envolvem aceitação harmoniosa de dois termos geralmente incompatíveis tornam-se atemporais e manifestam, de modo evidente, seu caráter contestador de paradigmas instituídos.
- BViver implica agir com coerência aos pressupostos do pensamento crítico e, na contemporaneidade, esse pensamento crítico é o estabelecido por Spinoza em seu estudo sobre a soberania dos afetos, das paixões tristes e das paixões alegres.
- CAtividades jornalísticas, como a de colunista, impõem tratamento simplificado de grandes temas, quer devido ao tipo de público a que se destinam, quer ao próprio perfil dos divulgadores desses temas.
- DQuando o indivíduo problematiza fatos que lhe chegam por meio de seus próprios sentidos, enreda-se em indagações que nada atenuam suas incertezas, por isso essa é intrinsecamente uma prática estéril.
- EPensar a paixão destituída da caracterização que a teoria de Spinoza legou ao pensamento contemporâneo pode propiciar a percepção de um novo circuito dos afetos, com interação de outra ordem entre eles. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Inferência é a capacidade de tirar conclusões lógicas que não estão explicitamente escritas no texto, mas que podem ser deduzidas a partir das informações e ideias apresentadas.
A) Incorreta: O texto discute dicotomias como estruturas que precisam ser questionadas, não que manifestam um caráter contestador de paradigmas. Além disso, não fala em "aceitação harmoniosa" de termos incompatíveis.
B) Incorreta: O texto, após reconhecer a importância de Spinoza, questiona a dicotomia por ele proposta, sugerindo que ela pode nos paralisar, em vez de afirmar que seu pensamento deve ser seguido coerentemente. Essa é a armadilha da banca, pois pega uma parte da informação (a importância de Spinoza) e a distorce para uma conclusão oposta ao argumento central do autor.
C) Incorreta: A menção à coluna de jornal é uma autocrítica do autor sobre a impossibilidade de aprofundar um tema complexo ali, não uma legitimação geral sobre a simplificação imposta pelo jornalismo.
D) Incorreta: O texto propõe o questionamento de dicotomias como um caminho para "avançar em direção às transformações que desejamos", o que contraria a ideia de ser uma prática estéril ou que apenas aumenta incertezas.
E) Correta: O texto questiona a dicotomia de Spinoza ("talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada") e propõe um cenário onde "existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres", o que implica um "novo circuito dos afetos, com interação de outra ordem entre eles".
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.