Questão nº 45
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 45)
Atenção: As questões de números 41 a 48 referem-se ao trecho que segue.
Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.
Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.
Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.
Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.
No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).
É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.
Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.
Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.
A tradução de segmento do texto que não prejudica o sentido original é:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 41, questão nº 42, questão nº 43, questão nº 44, questão nº 46, questão nº 47, questão nº 48.
- A(parágrafo 1) conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações / estamos cientes de que usam artifícios para influenciar o modo como avaliamos argumentos e o modo como reagimos a eles.
- B(parágrafo 2) podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto / são capazes não somente de induzir a regulamentações que, no futuro, sejam tomadas como pontos de partida.
- C(parágrafo 2) mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico / mas também como solo promissor para a instituição de certos modelos de pensamento crítico.
- D(parágrafo 3) a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes / a servidão teria potencial de se tornar eterno reflexo daquilo que as paixões tristes chegam a provocar.
- E(parágrafo 8) não há vida [...] que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade / não há vida que não se valha do imobilismo para reconquistar seu ritmo próprio. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Paráfrase é a reescrita de um texto ou frase com outras palavras, mantendo o sentido original e a ideia central, sem adicionar ou subtrair informações essenciais.
- (A) Incorreta: A paráfrase altera o sentido ao usar "artifícios para influenciar", que sugere manipulação, enquanto "maneiras de orientar" é mais neutro. Também restringe o sentido de "pensamento e ações" para "avaliamos argumentos e reagimos a eles".
- (B) Incorreta: A paráfrase muda o tempo e a natureza do "horizonte normativo pressuposto" (algo já dado) para "regulamentações que, no futuro, sejam tomadas como pontos de partida", perdendo a ideia de "pressuposto".
- (C) Incorreta: A paráfrase adiciona a ideia de "promissor", que não está presente no original, e "instituição" pode não ser sinônimo exato de "consolidação" no contexto.
- (D) Incorreta: A paráfrase introduz "potencial" e "eterno", que não estão no original, alterando a certeza e a duração da "perpetuação". "Reflexo" também não captura totalmente o "caráter reativo".
- (E) Correta: A paráfrase mantém fielmente o sentido original. "Vestir-se com sua própria impotência" é bem traduzido por "valer-se do imobilismo", ambos expressando a ideia de uma pausa ou inatividade necessária. "Recompor sua velocidade" é sinônimo de "reconquistar seu ritmo próprio", referindo-se à recuperação da dinâmica vital.
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.