Questão nº 46
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 46)
Atenção: As questões de números 41 a 48 referem-se ao trecho que segue.
Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.
Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.
Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.
Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.
No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).
É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.
Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.
Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.
Há verbos que, na condição de auxiliar, expressam o ponto de vista do falante sobre o que enuncia, explicitam, por exemplo, sua avaliação sobre a ideia ou ideias que está veiculando. O segmento que ilustra de maneira relevante o papel desses verbos é:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 41, questão nº 42, questão nº 43, questão nº 44, questão nº 45, questão nº 47, questão nº 48.
- A(parágrafo 2) há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias.
- B(parágrafo 3) A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres.
- C(parágrafo 4) Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza.
- D(parágrafo 5) talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada. (alternativa correta)
- E(parágrafo 8) Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Verbos auxiliares modais são aqueles que, junto com um verbo principal, expressam a atitude ou o ponto de vista do falante sobre a ação, indicando, por exemplo, possibilidade, necessidade, obrigação ou probabilidade.
- A) Incorreta: "percebemos" é um verbo principal, não um auxiliar modal. A necessidade é expressa por um substantivo ("necessidade"), não por um verbo auxiliar.
- B) Incorreta: "estaria" é o verbo principal no condicional, indicando uma hipótese, mas não está funcionando como auxiliar de outro verbo para expressar modalidade.
- C) Incorreta: "seria" é o verbo principal no condicional, indicando uma hipótese, não um auxiliar modal de outro verbo.
- (D) Correta: Os verbos "possa" (do verbo "poder") e "deva" (do verbo "dever") atuam como auxiliares do verbo principal "ser abandonada". Eles expressam, respectivamente, a possibilidade e a necessidade/obrigação de que a dicotomia seja abandonada, refletindo diretamente o ponto de vista e a avaliação do falante. O advérbio "talvez" reforça a modalidade de possibilidade.
- E) Incorreta: "há" é o verbo principal (sentido de existir) e "sirva" é o verbo principal da oração subordinada. Não há verbos auxiliares modais expressando o ponto de vista do falante sobre a ação.
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.