Questão nº 43
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 43)
Atenção: As questões de números 41 a 48 referem-se ao trecho que segue.
Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.
Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.
Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.
Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.
No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).
É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.
Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.
Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.
Sobre o que vem mencionado na alternativa, considerado em seu contexto, é correto o seguinte comentário:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 41, questão nº 42, questão nº 44, questão nº 45, questão nº 46, questão nº 47, questão nº 48.
- A(parágrafo 1) A menção a Em filosofia representa uma restrição; nesse campo de saber os especialistas aceitam sem reservas as dicotomias, pois o conhecimento profundo do modo como elas foram estruturadas e de sua exata abrangência faz que sejam legitimadas.
- B(parágrafo 2) Em Tais dicotomias, o pronome demonstrativo remete às dicotomias que constituem o acervo do campo filosófico, pois esse pertencimento garante que atravessem o tempo.
- C(parágrafo 2) No primeiro período, tem-se uma construção de valor aditivo correlacionando dois termos do enunciado. (alternativa correta)
- D(parágrafo 2) O emprego concomitante de palavras que remetem à primeira pessoa do plural – percebemos, nos, desejamos – e do segmento ao menos para alguns denota antagonismo entre ideias do autor e dos alguns que ele cita.
- E(parágrafo 2) No último período, a exclusão da vírgula que segue à palavra Pois não prejudica a correção da frase, levando em conta a norma-padrão da língua.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conectivos aditivos são palavras ou expressões que servem para somar ideias, informações ou argumentos, indicando uma relação de acréscimo ou continuidade entre as partes de uma frase ou entre frases. Eles ajudam a expandir o sentido, adicionando um novo elemento ao que já foi dito.
A) Incorreta: O texto não afirma que especialistas aceitam as dicotomias "sem reservas" na filosofia; apenas que são conhecidas e orientam o pensamento. O restante do texto, inclusive, questiona a validade de algumas delas.
B) Incorreta: Embora o pronome "Tais dicotomias" remeta corretamente às dicotomias filosóficas mencionadas, a afirmação de que "esse pertencimento garante que atravessem o tempo" não é sustentada pelo texto. O autor diz que elas "parecem ter a força de atravessar o tempo", e não que a filosofia garante sua permanência, especialmente porque ele as questiona adiante. A armadilha aqui é que a primeira parte da afirmação está correta, mas a justificativa ("pois") é uma inferência não validada pelo texto.
C) Correta: No primeiro período do parágrafo 2 ("Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico."), a construção "não apenas... mas também" é um conectivo aditivo correlativo. Ele adiciona e correlaciona duas funções ou modos de operação das dicotomias, indicando que elas atuam de duas maneiras distintas, somando seus papéis.
D) Incorreta: O uso da primeira pessoa do plural ("percebemos", "nos", "desejamos") e a expressão "ao menos para alguns" não denotam antagonismo. Pelo contrário, sugerem que o autor se inclui no grupo que percebe a necessidade de questionar e que a razão para isso (a paralisia) é válida para ele e para outros, sem indicar oposição.
E) Incorreta: A vírgula após "Pois" é necessária para isolar a expressão intercalada "ao menos para alguns". A exclusão dessa vírgula prejudicaria a correção gramatical, pois a intercalação ficaria sem o devido isolamento inicial.
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.