Questão nº 44

Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 44)

FCC2017Analista Judiciário - TaquigrafiaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Atenção: As questões de números 41 a 48 referem-se ao trecho que segue.

Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.

Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.

Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.

Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.

No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).

É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.

Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.

Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.


O parágrafo 3 está estruturado, na sequência dada e em coesão adequada, por meio dos seguintes passos:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 41, questão nº 42, questão nº 43, questão nº 45, questão nº 46, questão nº 47, questão nº 48.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

A progressão textual é a forma como as ideias de um texto se desenvolvem e avançam, construindo o sentido de maneira lógica e coesa. Em um parágrafo, isso significa identificar a sequência de informações apresentadas e como elas se conectam.

(A) Incorreta: Embora mencione Spinoza e o pensamento crítico, a primeira parte da alternativa ("menção a Spinoza e ao pensamento crítico atual") é menos precisa do que a de D, que foca no exemplo da dicotomia. Além disso, "taxonomia das paixões" é um termo um pouco forte para a simples descrição de como as paixões tristes e alegres afetam a potência de agir.
(B) Incorreta: A armadilha aqui está na palavra "contradição". O texto não apresenta uma contradição entre paixão alegre e liberdade, ou entre paixão triste e servidão; ele estabelece uma ligação ou associação entre elas ("A liberdade estaria ligada...", "a servidão seria...").
(C) Incorreta: A expressão "outro exemplo de dicotomia: liberdade/escravidão" é imprecisa. A dicotomia liberdade/servidão não é apresentada como um novo exemplo independente, mas sim como uma consequência ou associação da dicotomia das paixões tristes e alegres, como o próprio texto indica ao dizer que a liberdade "estaria ligada" e a servidão "seria a perpetuação" dessas paixões.
(D) Correta: Esta alternativa descreve a progressão do parágrafo de forma exata e sequencial:

  1. "exemplo de um certo tipo de dicotomia, que envolve paixões": Corresponde à primeira frase, que introduz a dicotomia entre paixões tristes e alegres como um exemplo.
  2. "caracterização dessa dicotomia": Refere-se à segunda frase, que explica o que as paixões tristes e alegres fazem ("diminuem nossa potência de agir", "aumentam nossa potência de agir").
  3. "menção a dicotomia associada à dicotomia exemplificada": Captura a terceira frase, que liga a dicotomia liberdade/servidão à dicotomia das paixões ("A liberdade estaria ligada...", "a servidão seria...").
  4. "dedução acerca da dinâmica dos afetos": Descreve a última frase, que conclui sobre como os afetos (paixões) influenciam a capacidade de agir e existir, ou seja, sua dinâmica.
    (E) Incorreta: A última parte, "argumento conclusivo sobre a importância de se viver uma paixão alegre", está incorreta. O parágrafo termina com uma dedução sobre como os afetos funcionam e afetam a potência de vida, e não com um argumento prescritivo sobre a importância de se viver uma paixão alegre.

Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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