Questão nº 46
Questão de Direito Processual Penal · FGV TJ-PR 2021 (nº 46)
Especificamente no que toca à delação premiada, em geral, ela surge a partir da produção de acordo bilateral, materializado em um pacto, que pode ser pré-processual, inclusive com imunidade (não denúncia), ou mesmo durante o curso do processo penal ou da execução. Mas não se exclui que, preenchidos os requisitos legais, possa o juiz reconhecer os benefícios na decisão penal.
Nesse particular, quanto à delação premiada, é correto afirmar que:
- Anão é possível colaboração que independa de negócio jurídico prévio celebrado entre o imputado e o órgão acusatório ou a polícia;
- Ba colaboração, independentemente da sua eficácia, deverá ser reconhecida pelo magistrado, de forma a gerar benefícios em favor do réu;
- Ca concessão de benefícios depende de prévio acordo a ser firmado entre as partes interessadas, privando o magistrado de uma atuação discricionária;
- Da incidência da causa especial de redução da pena prevista na Lei nº 9.807/1999 não pode ser afastada pela adoção da causa de redução de pena fixada em acordo de colaboração premiada;
- Etendo sido realizada a colaboração premiada com o Ministério Público, não é cabível o benefício da delação premiada unilateral, por configurar bis in idem de benefícios. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave é que a colaboração premiada (ou delação premiada) é um negócio jurídico processual (um acordo formal) entre o acusado e o acusador (Ministério Público ou Delegado), onde o réu entrega informações úteis em troca de benefícios penais. A lei exige que esse acordo seja homologado pelo juiz, mas o juiz não pode criar benefícios por conta própria, nem o réu pode exigi-los sem ter cumprido o que prometeu no pacto. A "delação unilateral" (sem acordo prévio) só existe em casos específicos previstos em lei, como a Lei de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Lei nº 9.807/1999), mas se o réu já fez um acordo formal com o MP, ele não pode acumular os benefícios desse acordo com os da lei de proteção, pois seria receber duas vezes pela mesma colaboração (o que a lei veda como bis in idem).
- (A) Incorreta: A lei admite a chamada "delação premiada unilateral" (sem acordo prévio), como na hipótese da Lei nº 9.807/1999, em que o juiz pode reconhecer o benefício na sentença mesmo sem pacto formal, desde que preenchidos os requisitos legais.
- (B) Incorreta: A colaboração só gera benefícios se for eficaz (produzir resultados concretos, como recuperar o produto do crime ou identificar outros autores); se for inútil, o juiz pode negar o benefício, pois a lei exige efetividade.
- (C) Incorreta: Embora o acordo seja a regra, a lei permite que, em situações específicas (como na Lei nº 9.807/1999), o juiz reconheça a redução de pena mesmo sem acordo prévio, atuando de forma vinculada à lei, não discricionária.
- (D) Incorreta: A redução de pena da Lei nº 9.807/1999 (que trata da proteção a vítimas e testemunhas) pode ser afastada quando o réu já obteve benefícios maiores ou específicos em acordo de colaboração premiada, pois o juiz aplica o benefício mais vantajoso, sem acumular.
- (E) Correta: Se o réu já celebrou acordo de colaboração premiada com o Ministério Público, não pode, sobre os mesmos fatos, pedir também a redução de pena da delação premiada unilateral (da Lei nº 9.807/1999), pois isso configuraria bis in idem (dupla punição ou duplo benefício pela mesma conduta), vedado pelo sistema jurídico.
Armadilha da banca na alternativa (C): Ela parece correta porque a colaboração realmente exige acordo prévio, mas a pegadinha está na palavra "privando o magistrado de uma atuação discricionária". O juiz não é "privado" de nada; ele tem o dever de homologar o acordo (controle de legalidade) e, na sentença, verificar se os benefícios foram cumpridos. A discricionariedade do juiz não é para criar benefícios, mas para fiscalizar o cumprimento do pacto. A banca tenta confundir o aluno que sabe que o acordo é obrigatório, mas esquece que a lei prevê exceções (como a delação unilateral) e que o juiz não fica "privado" de atuar, apenas atua dentro dos limites legais.
Fonte: FGV TJ-PR 2021 Juiz Substituto (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.