Questão nº 48
Questão de Direito Penal · FGV TJ-GO 2023 (nº 48)
Jorge, em agosto de 2023, invade o galinheiro de um vizinho, então ausente, de onde retira seis galinhas, duas das quais abate para sua alimentação, vendendo as demais, passando-se por seu dono. Jorge não possui qualquer anotação criminal e o valor total das referidas aves é de R$ 150,00.
Diante do caso narrado, a correta adequação típica dos fatos, à luz do ordenamento jurídico penal, é:
- Afurto privilegiado;
- Bfurto qualificado;
- Cfurto qualificado privilegiado; (alternativa correta)
- Dfato atípico, devendo ser reconhecido o princípio da bagatela;
- Efurto privilegiado e disposição de coisa alheia como própria.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O furto qualificado privilegiado ocorre quando o crime de furto apresenta uma circunstância que o torna mais grave (qualificadora), mas o criminoso é primário (não tem antecedentes) e o valor da coisa furtada é pequeno, permitindo uma pena mais branda.
(A) Incorreta: Esta alternativa ignora a qualificadora presente na conduta de Jorge, que "invade o galinheiro", o que configura, por exemplo, a escalada ou o rompimento de obstáculo, tornando o furto qualificado.
(B) Incorreta: Esta alternativa ignora os requisitos do privilégio, que são a primariedade de Jorge ("não possui qualquer anotação criminal") e o pequeno valor das aves (R$ 150,00).
(C) Correta: Jorge praticou um furto qualificado pela invasão do galinheiro (que pode ser interpretada como escalada ou rompimento de obstáculo, conforme Art. 155, §4º, I ou II, do Código Penal). Contudo, ele é primário e o valor da coisa furtada é de pequeno valor (R$ 150,00), o que permite a aplicação do privilégio previsto no Art. 155, §2º, do Código Penal. A jurisprudência majoritária admite a compatibilidade do furto qualificado (quando a qualificadora é de natureza objetiva, como as do §4º, I, II e IV) com o privilégio.
(D) Incorreta: (Armadilha da banca) Embora o valor seja pequeno, R$ 150,00 por seis galinhas não é considerado irrisório a ponto de aplicar o princípio da insignificância (bagatela), que exige uma lesão jurídica inexpressiva e mínima ofensividade da conduta. A presença de uma qualificadora (invasão do galinheiro) também dificulta a aplicação da bagatela, pois aumenta a reprovabilidade da conduta.
(E) Incorreta: A venda das galinhas após o furto é um exaurimento do crime de furto, ou seja, uma consequência natural da posse da coisa furtada, e não um crime autônomo de disposição de coisa alheia como própria (que seria estelionato, Art. 171, §2º, I, do CP). Além disso, a alternativa ignora a qualificadora do furto.
Fonte: FGV TJ-GO 2023 Juiz Substituto (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.