Questão nº 46

Questão de Direito Penal · FGV TJ-BA 2026 (nº 46)

FGV2026Juiz SubstitutoDireito Penal
Gabarito: Dver comentário ↓

Renato, empresário do ramo alimentício, descobriu que seu sócio Fábio desviava valores das contas da empresa há mais de 2 anos. Tomado por profundo sentimento de vingança, Renato passou as 3 semanas seguintes planejando minuciosamente a morte de Fábio: estudou a rotina diária da vítima, adquiriu arma de fogo com numeração raspada no mercado ilegal, simulou viagens de negócios para criar um álibi e escolheu local ermo na zona rural para a execução do crime. No dia escolhido, atraiu Fábio ao local sob o pretexto de inspecionar um terreno e efetuou três disparos contra ele, causando-lhe a morte.
Renato foi condenado por homicídio qualificado por motivo torpe (Art. 121, §2º, I, do Código Penal) e por emboscada (Art. 121, §2º, IV, do Código Penal). Na dosimetria da pena, o juiz sentenciante deve decidir como tratar a premeditação do crime alegada pelo Ministério Público.
Considerando a jurisprudência atual do Superior Tribunal de Justiça sobre o tema, é correto afirmar que a premeditação:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

A dosimetria da pena é o processo de cálculo da pena que um juiz aplica a um condenado, dividida em três fases. A premeditação é o planejamento antecipado de um crime.

  • (A) Incorreta: A premeditação, por si só, não é uma circunstância agravante específica prevista no Art. 61 do Código Penal. Além disso, a agravante mencionada (Art. 61, "l" ou "c" ou "d" dependendo da versão, referente a dissimulação, traição ou emboscada) é frequentemente uma qualificadora do homicídio (como a emboscada no caso), e utilizá-la novamente configuraria bis in idem.
  • (B) Incorreta: Embora o dolo pressuponha vontade consciente, a premeditação excessiva, prolongada e detalhada, como a descrita no caso (3 semanas de planejamento minucioso, criação de álibi, aquisição de arma), vai além do dolo normal e indica um maior grau de reprovabilidade da conduta, podendo, portanto, ser valorada negativamente.
  • (C) Incorreta: O princípio da legalidade estrita se refere à tipificação do crime e à cominação da pena. As circunstâncias judiciais do Art. 59 do Código Penal são abertas e permitem ao juiz valorar elementos que demonstrem maior reprovabilidade da conduta, mesmo que não expressamente listados, sem violar a legalidade.
  • (D) Correta: A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) entende que a premeditação, quando não utilizada como qualificadora ou agravante (para evitar bis in idem), pode ser valorada negativamente na primeira fase da dosimetria da pena, sob a rubrica da culpabilidade. Isso ocorre porque o planejamento detalhado e a frieza demonstram um maior grau de reprovabilidade da conduta do agente.
  • (E) Incorreta: Esta alternativa é o distrator mais tentador. Embora a premeditação possa, em tese, ser relacionada às "circunstâncias do crime" (que se referem ao modus operandi), a jurisprudência do STJ tende a associar a premeditação intensa e a frieza do agente principalmente à culpabilidade (grau de reprovabilidade da conduta). A premeditação de 3 semanas, com todos os detalhes de planejamento, reflete mais a intensidade da vontade e a reprovabilidade da decisão do agente (culpabilidade) do que apenas o modo de execução do crime (circunstâncias do crime), especialmente quando a emboscada já qualifica o crime.

Fonte: FGV TJ-BA 2026 Juiz Substituto (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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