Questão nº 41

Questão de Direito Civil · FGV PGE-SC 2022 (nº 41)

FGV2022Procurador do EstadoDireito Civil
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O banco X emprestou à cooperativa agrícola KLKW recursos para custear o plantio de milho. Como contraprestação, ficou pactuada a entrega de metade da próxima safra. Havia uma cláusula com a estimativa de que fossem colhidas duas toneladas do cereal, mas que a variação, para cima ou para baixo, seria desprezível para os contratantes.
Por uma combinação de fatores climáticos, a safra foi a maior já vista em todos os tempos, chegando a vinte toneladas. Além disso, devido a confrontos internacionais, o preço das commodities agrícolas disparou no mercado.
A cooperativa, então, ajuíza ação revisional alegando que, neste caso, os juros seriam elevados em mais de 100%, o que, inclusive, demonstraria o enriquecimento sem causa da instituição financeira.
Nesse caso, a demanda deverá ser julgada:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

A teoria da imprevisão permite a revisão ou resolução de contratos de longa duração quando eventos extraordinários e imprevisíveis tornam a prestação de uma parte excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, desequilibrando o contrato.

  • (A) Correta: A demanda deverá ser julgada improcedente porque o contrato, ao vincular a contraprestação à "metade da próxima safra", incorporou a álea (risco) inerente à atividade agrícola, incluindo variações na quantidade da colheita e nos preços de mercado. A cláusula que menciona a variação como "desprezível" demonstra que as partes consideraram e assumiram o risco de flutuações, mesmo que a magnitude da variação tenha sido maior do que o esperado. A teoria da imprevisão não se aplica a riscos que são próprios e inerentes ao tipo de contrato celebrado e que foram, ainda que implicitamente, assumidos pelas partes.

  • (B) Incorreta: Embora a alternativa liste corretamente os requisitos da teoria da imprevisão (Art. 478 do Código Civil), ela falha ao aplicá-los ao caso concreto. O evento (grande safra e alta de preços) não é considerado "imprevisível" no sentido jurídico para fins de revisão contratual, pois o risco de variação da safra e do preço da commodity é um risco inerente a um contrato agrícola que tem a safra como objeto de pagamento, sendo uma álea assumida pelas partes.

  • (C) Incorreta: O Código de Defesa do Consumidor (CDC) não se aplica a esta relação contratual. Um empréstimo de um banco a uma cooperativa agrícola para custear o plantio é, em regra, uma relação empresarial ou paritária, e não uma relação de consumo, onde a cooperativa seria o consumidor.

  • (D) Incorreta: Assim como na alternativa B, a teoria da imprevisão não se aplica devido à álea do contrato. Além disso, mesmo que se aplicasse, a consequência primária da teoria da imprevisão é a revisão do contrato para restabelecer o equilíbrio, e não o retorno ao status quo ante (resolução), a menos que a revisão seja inviável. A cooperativa ajuizou uma "ação revisional", indicando o desejo de manter o contrato, mas com termos ajustados.

  • (E) Incorreta: Embora o pedido revisional seja improcedente, a alegação de enriquecimento sem causa (in rem verso) não se sustenta. O enriquecimento do banco (receber uma contraprestação de maior valor) tem uma causa jurídica legítima: o próprio contrato validamente celebrado, que vinculou o pagamento à metade da safra. Não há enriquecimento sem causa quando o benefício decorre de um contrato válido e de riscos assumidos contratualmente.

Fonte: FGV PGE-SC 2022 Procurador do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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