Questão nº 17
Questão de Direito Administrativo · FGV PGE-SC 2022 (nº 17)
Durante evento epidêmico, João, médico do Estado de Santa Catarina, diretor de hospital público de Blumenau, recebe um ofício da União Federal, subscrito pelo ministro da Saúde, pelo qual se determina a entrega, em 24 horas, de cem mil seringas, duzentas máquinas de diálise e três tomógrafos adquiridos com recursos exclusivos dos cofres catarinenses. O ministro, no ofício, informa que se trata de requisição do SUS, prevista na legislação federal de regência. Desesperado, João procura a PGE/SC e pede sua opinião legal sobre o ocorrido.
A correta manifestação do procurador do Estado de Santa Catarina é:
- AJoão, pelo cargo que ocupa, deverá avaliar a conveniência e oportunidade de atender à requisição;
- Ba União Federal está agindo de acordo com a Constituição da República de 1988, que prevê a competência exclusiva da União Federal para legislar sobre saúde;
- Ca norma da legislação federal que permite à União Federal requisitar, no âmbito do SUS, bens e serviços de outros entes federativos, é inconstitucional, por violar a autonomia dos Municípios, dos Estados e do Distrito Federal; (alternativa correta)
- Da União Federal está agindo de acordo com a Constituição da República de 1988, que lhe permite requisitar, a qualquer momento, bem dos Municípios, dos Estados e do Distrito Federal;
- Ea União Federal pode desapropriar qualquer bem móvel dos demais entes federativos, desde que pague indenização prévia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A requisição administrativa é a utilização temporária de bens ou serviços por parte do Poder Público em situações de perigo público iminente, com posterior indenização. No Brasil, a autonomia dos entes federativos (União, Estados, Municípios e Distrito Federal) é um princípio fundamental, significando que cada um possui capacidade de auto-organização, autogoverno e autoadministração, incluindo a gestão de seus próprios bens e recursos.
- (A) Incorreta: João, como diretor de hospital público, é um agente público e deve agir de acordo com a legalidade. A requisição administrativa, se legal, é um ato vinculado, não discricionário quanto à sua obrigatoriedade de cumprimento (embora possa haver discricionariedade na forma de execução). A questão central é a legalidade e constitucionalidade da requisição em si, não a conveniência de João.
- (B) Incorreta: A competência para legislar sobre saúde é concorrente entre a União, Estados e Distrito Federal (Art. 24, XII, da CF/88), não exclusiva da União. Mesmo que fosse exclusiva, a competência legislativa não implica o poder de requisitar bens de outros entes federativos de forma unilateral, violando sua autonomia. Armadilha da banca: A ideia de que a União tem "competência exclusiva" em saúde é um distrator comum, mas a CF/88 estabelece competência concorrente, e mesmo assim, isso não autoriza a violação da autonomia federativa.
- (C) Correta: A requisição de bens de um Estado por parte da União, mesmo no âmbito do SUS, viola o princípio da autonomia dos entes federativos (Art. 18 da CF/88). O SUS é um sistema descentralizado, e os Estados e Municípios possuem autonomia para gerir seus recursos e bens. Uma lei federal que permitisse à União requisitar unilateralmente bens adquiridos com recursos próprios de um Estado, sem um fundamento constitucional que respeite o pacto federativo, seria inconstitucional por desrespeitar a capacidade de autoadministração e autogoverno do ente federativo.
- (D) Incorreta: A Constituição não permite à União requisitar bens dos demais entes federativos "a qualquer momento". A requisição administrativa é uma medida excepcional, sujeita a requisitos legais e constitucionais, e sua aplicação a bens de outros entes federativos é ainda mais restrita e controversa, justamente pela autonomia federativa.
- (E) Incorreta: A requisição administrativa (uso temporário com indenização posterior) é diferente da desapropriação (perda definitiva da propriedade com indenização prévia e justa). A alternativa confunde os institutos e, mesmo que se tratasse de desapropriação, a União não pode desapropriar "qualquer bem móvel" de outros entes federativos de forma irrestrita, sem respeitar a autonomia e as competências constitucionais de cada um.
Fonte: FGV PGE-SC 2022 Procurador do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.