Questão nº 64

Questão de Direitos Difusos e Coletivos · FGV MP-GO 2022 (nº 64)

FGV2022Promotor de Justiça SubstitutoDireitos Difusos e Coletivos
Gabarito: Ever comentário ↓

Em razão de intensas chuvas ocorridas em Cavalcante, no nordeste de Goiás, a cheia do rio Prata causou enorme destruição e deixou desabrigadas centenas de famílias carentes que vivem na região. Com a aquiescência do poder público municipal, vários particulares se voluntariaram para auxiliar as vítimas daquele desastre natural, sobretudo mediante a organização e distribuição dos alimentos, roupas e outros itens doados a partir de diversas regiões do Estado e do país. Instado por notícia de desvio desses mantimentos, o Ministério Público instaurou inquérito civil e angariou elementos informativos robustos no sentido de que José, um dos voluntários, efetivamente se apropriou de parte dos bens doados às vítimas.

Na situação hipotética descrita, consoante o magistério da doutrina especializada e a legislação vigente, é correto afirmar que José:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

A Lei de Improbidade Administrativa (LIA - Lei nº 8.429/1992) responsabiliza não apenas servidores públicos formais, mas também particulares que, mesmo sem vínculo direto, atuam em nome da administração pública ou se beneficiam de atos ímprobos ligados a ela, especialmente quando exercem uma função pública de fato.

  • (A) Incorreta: A LIA abrange particulares que, mesmo sem vínculo formal, atuam em função pública ou se beneficiam de atos ímprobos, conforme o Art. 2º, §2º (ou parágrafo único, antes da Lei 14.230/21) e Art. 3º.
  • (B) Incorreta: Embora José seja um "agente de fato", o termo "putativo" se refere a uma situação de erro (por exemplo, nomeação inválida mas tida como válida), o que não se aplica ao voluntário em calamidade.
  • (C) Incorreta: Esta é a alternativa mais tentadora. A LIA geralmente exige que a responsabilização do particular esteja vinculada a um ato ímprobo praticado por um agente público (Art. 3º). No entanto, José, ao atuar como "agente de fato necessário", é equiparado a um agente público para os fins da lei, e não um particular agindo de forma desvinculada. A armadilha reside em sugerir que um particular pode cometer improbidade isoladamente sem ser ele próprio considerado um agente ou sem a concorrência de um agente formal.
  • (D) Incorreta: A LIA se aplica a particulares que exercem função pública, mesmo sem vínculo formal, e o patrimônio desviado, sendo doações para vítimas geridas com aquiescência pública, é considerado de interesse público, não privado.
  • (E) Correta: José, ao atuar como voluntário na distribuição de bens doados em situação de calamidade, com a aquiescência do poder público, assume uma função pública de fato. Ele se enquadra na figura do agente de fato necessário, sendo equiparado a agente público para fins da LIA (Art. 2º, §2º, ou parágrafo único, antes da Lei 14.230/21), e o desvio de bens para proveito próprio configura ato de improbidade que importa em enriquecimento ilícito (Art. 9º).

Fonte: FGV MP-GO 2022 Promotor de Justiça Substituto (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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