Questão nº 89
Questão de Direito Processual Penal · FGV AGE-MG Procurador do Estado 2022 (nº 89)
João, advogado residente na cidade de Belo Horizonte/MG, desconfia que sua esposa mantém uma relação extraconjugal com o prefeito da cidade de Betim. Decide então obter provas da infidelidade da mulher para utilizar em uma futura ação de divórcio, razão pela qual contrata um detetive particular (policial federal aposentado) para interceptar as conversas telefônicas de sua esposa clandestinamente (crime previsto no Art. 10 da Lei nº 9.296/1996, com pena de 1 a 4 anos de reclusão).
Durante o período em que as conversas estavam sendo interceptadas, sobrevém a nomeação, pelo Governador do Estado, do referido advogado para o cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Poucos dias após a nomeação de João, em razão de divergências sobre o pagamento da remuneração pela interceptação, o policial federal interrompe a interceptação e comparece perante a superintendência da Polícia Federal para noticiar a prática criminosa.
Assinale a opção que indica o foro e Juízo competente para julgar o crime praticado por João.
- AO Tribunal Regional Federal da 1ª Região, tendo em vista que a vítima é prefeito de município de Estado abrangido na competência desse Tribunal e possui foro por prerrogativa de função; entretanto, como há participação de um policial federal, ocorre a fixação da competência federal.
- BO Tribunal de Justiça de Minas Gerais, tendo em vista que a vítima é prefeito de município daquele Estado e possui foro por prerrogativa de função.
- CO Superior Tribunal de Justiça, tendo em vista que um dos autores possui foro por prerrogativa de função e o crime foi praticado após sua posse.
- DO Supremo Tribunal Federal, tendo em vista que um dos autores possui foro por prerrogativa de função e o crime foi praticado após sua posse.
- EQualquer uma das varas criminais de primeiro grau de Belo Horizonte, tendo em vista que o crime se iniciou quando o autor ainda era advogado. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O foro por prerrogativa de função (também conhecido como foro privilegiado) é uma regra especial que determina que certas autoridades públicas sejam julgadas por tribunais superiores, e não por juízes de primeira instância. No entanto, essa prerrogativa geralmente se aplica a crimes cometidos durante o exercício da função e que tenham alguma relação com ela, ou pelo menos enquanto a pessoa ocupa o cargo. O momento em que o crime se inicia é crucial para definir a competência.
- (A) Incorreta: O prefeito não é a vítima direta do crime de interceptação telefônica clandestina (a vítima é a esposa de João, cuja privacidade foi violada). Além disso, a participação de um policial federal aposentado como detetive particular não atrai automaticamente a competência da Justiça Federal, pois o crime não afeta bens, serviços ou interesses da União.
- (B) Incorreta: A vítima do crime de interceptação é a esposa de João. O fato de o prefeito ser o suposto amante não o torna vítima do crime de interceptação, nem atrai a competência do Tribunal de Justiça para julgar o autor do crime.
- (C) Incorreta: Esta é a principal armadilha. Embora Desembargadores tenham foro por prerrogativa de função no Superior Tribunal de Justiça (STJ), essa prerrogativa se aplica a crimes cometidos durante o exercício da função e que tenham relação com ela, ou pelo menos enquanto ocupam o cargo. No caso, o crime de João (contratação do detetive e início da interceptação) começou quando ele ainda era advogado, ou seja, antes de assumir o cargo de Desembargador. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente após a Questão de Ordem na Ação Penal 937, firmou o entendimento de que o foro por prerrogativa de função se aplica apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e em razão dele. Como o crime se iniciou antes de João ser Desembargador e não tem relação com a função, a prerrogativa não se aplica.
- (D) Incorreta: Desembargadores não possuem foro por prerrogativa de função no Supremo Tribunal Federal (STF). O foro para Desembargadores é o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Além disso, o crime não foi praticado após sua posse, mas sim iniciado antes.
- (E) Correta: A competência é fixada pelo status do réu no momento da prática do crime. João iniciou o crime de interceptação telefônica clandestina quando era advogado, ou seja, um cidadão comum sem prerrogativa de função. Mesmo que ele tenha adquirido o cargo de Desembargador posteriormente e o crime seja de natureza permanente (a interceptação estava em curso), a regra geral é que a competência se define pelo momento da iniciação da conduta criminosa. Portanto, o julgamento deve ocorrer em uma vara criminal de primeira instância, no local onde o crime foi iniciado (Belo Horizonte, onde João reside e contratou o detetive).
Fonte: FGV AGE-MG Procurador do Estado 2022 Procurador do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.