Questão nº 17
Questão de Direito Administrativo · FGV AGE-MG Procurador do Estado 2022 (nº 17)
Com o objetivo de conferir máxima efetividade ao princípio da autotutela, o Estado Ômega, um dos estados com maior arrecadação tributária do país, editou lei estabelecendo que a Administração Pública estadual anulará seus atos inválidos, de ofício ou por provocação de pessoa interessada, observado o prazo decadencial de 10 (dez) anos contado de sua produção.
De acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a citada norma é
- Ainconstitucional, por violação ao princípio da igualdade com os demais Estados-membros, pois o prazo de 5 anos, previsto na Lei nº 9.784/99, consolidou-se como marco temporal geral nas relações entre o poder público e particulares. (alternativa correta)
- Binconstitucional, sob o aspecto formal, pois viola a competência privativa da União para legislar sobre processos e contratos administrativos.
- Cconstitucional, desde que haja a instauração de processo administrativo no qual sejam assegurados o contraditório e a ampla defesa.
- Dinconstitucional, por violação ao princípio da segurança jurídica, pois o prazo de dez anos é muito superior ao prazo geral trienal previsto na Lei Federal nº 9.784/99, que é aplicável de forma subsidiária aos Estados e Municípios.
- Econstitucional, porque, a um só tempo, representa maior proteção ao patrimônio público estadual e garante a autonomia do Estado Ômega, em prestígio ao pacto federativo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A autotutela é o poder que a Administração Pública tem de rever seus próprios atos, anulando os ilegais ou revogando os inoportunos, sem precisar da intervenção do Judiciário. No entanto, esse poder não é ilimitado no tempo, sendo submetido a um prazo decadencial, que é o período máximo para que a Administração possa exercer essa prerrogativa.
(A) Correta: A norma é inconstitucional. O Supremo Tribunal Federal (STF) firmou entendimento de que o prazo decadencial de 5 (cinco) anos, previsto no Art. 54 da Lei nº 9.784/99 (que regula o processo administrativo no âmbito federal), deve ser aplicado de forma geral a todos os entes da federação (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) para a anulação de atos administrativos que gerem efeitos favoráveis aos destinatários. Isso visa garantir a segurança jurídica e a isonomia no tratamento dos cidadãos em todo o território nacional, evitando que cada Estado estabeleça prazos diferentes e desiguais.
(B) Incorreta: A competência privativa da União para legislar sobre "processos" (Art. 22, I, da CF/88) refere-se a processo civil, penal, etc., e não ao processo administrativo em geral. Estados e Municípios têm competência para legislar sobre seus próprios processos administrativos, desde que observem as normas gerais estabelecidas pela União, como os princípios e, no caso, o prazo decadencial fixado pelo STF.
(C) Incorreta: A exigência de processo administrativo com contraditório e ampla defesa é uma condição para a validade da anulação de atos que afetem interesses individuais, mas não torna constitucional um prazo decadencial que contraria a jurisprudência consolidada do STF. A questão é sobre o prazo, não sobre a necessidade de devido processo legal.
(D) Incorreta: Embora a violação ao princípio da segurança jurídica seja um dos fundamentos da inconstitucionalidade, a alternativa erra ao mencionar um prazo geral trienal. O prazo geral estabelecido pela Lei nº 9.784/99 e adotado pelo STF é de 5 (cinco) anos, e não de 3 (três) anos.
(E) Incorreta: A proteção ao patrimônio público e a autonomia estadual são princípios importantes, mas não são absolutos. A autonomia dos Estados deve ser exercida em conformidade com os princípios constitucionais e a jurisprudência do STF, que, neste caso, prioriza a segurança jurídica e a uniformidade de tratamento aos cidadãos em todo o país, limitando o poder de autotutela a um prazo razoável e uniforme de 5 anos.
Fonte: FGV AGE-MG Procurador do Estado 2022 Procurador do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.