Questão nº 56

Questão de Direito Financeiro · FCC PGE-GO 2021 (nº 56)

FCC2021Procurador do Estado SubstitutoDireito Financeiro
Gabarito: Bver comentário ↓

Suponha que tenha sido editado decreto do Chefe do Executivo majorando, acima da defasagem inflacionária, a partir da respectiva edição, o valor cobrado pelo órgão de trânsito do Estado para custear: i) expedição de Carteira Nacional de Habilitação-CNH e ii) registro de alienação fiduciária e outros gravames incidentes sobre veículo, por solicitação de instituições financeiras. Referido decreto foi contestado, sob o argumento de desobediência do princípio da reserva legal, da anterioridade e pela não observância do prazo de 90 dias para cobrança dos novos valores (noventena), sustentando-se que ambas as atividades somente podem ser remuneradas mediante instituição de taxas. A análise jurídica da questão posta deve considerar que

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

Para entender a questão, precisamos diferenciar dois tipos de receita pública: a taxa e o preço público. A taxa é um tipo de tributo que o Estado cobra para remunerar um serviço público específico e divisível (como coleta de lixo) ou pelo exercício do seu poder de polícia (como fiscalização e licenciamento). Como é um tributo, a taxa exige lei para ser criada ou aumentada, e sua cobrança deve respeitar os princípios da anterioridade anual (só pode ser cobrada no ano seguinte ao da lei) e da anterioridade nonagesimal ou noventena (só pode ser cobrada 90 dias após a publicação da lei). Já o preço público (ou tarifa) é a remuneração por um serviço público de natureza comercial ou industrial, prestado pelo Estado em concorrência com o setor privado (como tarifas de água, energia, telefone). Não é um tributo, e por isso seu regime é de direito privado, podendo ser fixado ou majorado por decreto ou ato administrativo, sem a necessidade de lei nem a observância dos princípios da anterioridade.

No caso da questão:

  • i) expedição de Carteira Nacional de Habilitação-CNH: É o exercício do poder de polícia do Estado (fiscalizar a aptidão para dirigir) e a prestação de um serviço público específico. Portanto, deve ser remunerado por taxa.
  • ii) registro de alienação fiduciária e outros gravames incidentes sobre veículo: É um serviço registral público, compulsório para a validade e publicidade de atos jurídicos, também ligado ao poder de polícia ou a um serviço público específico. Portanto, também deve ser remunerado por taxa.

O decreto do Chefe do Executivo, ao majorar valores para atividades que são remuneradas por taxa, desrespeita a necessidade de lei e os princípios da anterioridade.

(A) Incorreta: Preços públicos não necessitam de lei para instituição ou majoração, e não se sujeitam à noventena. Esta alternativa confunde os regimes jurídicos.
(B) Correta: A expedição da CNH (item i) é uma atividade que expressa o poder de polícia do Estado. Atividades de poder de polícia são remuneradas por taxa. Como a taxa é um tributo, sua instituição ou majoração exige lei formal, e sua cobrança deve respeitar os princípios da anterioridade anual (vigência para o exercício financeiro seguinte) e da anterioridade nonagesimal (noventena). Um decreto do Chefe do Executivo não é uma lei, portanto, é uma via inadequada para majorar uma taxa.
(C) Incorreta: A distinção entre taxa e preço público não se baseia apenas na individualização do custo, mas principalmente na natureza da atividade estatal (poder de polícia/serviço público específico e divisível vs. serviço comercial/industrial). Serviços não passíveis de fruição individual são geralmente custeados por impostos, não por taxas.
(D) Incorreta: A majoração de uma taxa também depende de lei formal, não podendo ser feita por decreto. O princípio da reserva legal se aplica tanto à instituição quanto à majoração de tributos.
(E) Incorreta: Não há distinção legal que impeça a cobrança de taxas de pessoas jurídicas. A natureza do serviço ou atividade é que define se é taxa ou preço público, não o tipo de pagador. O registro de gravames (item ii) é um serviço público compulsório, portanto, remunerado por taxa, independentemente de quem o solicita (pessoa física ou jurídica).

Fonte: FCC PGE-GO 2021 Procurador do Estado Substituto (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.

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