Questão nº 56

Questão de Direito Civil · CEBRASPE PGE-ES 2025 (nº 56)

CEBRASPE2025Procurador do Estado de 1ª CategoriaDireito Civil
Gabarito: Cver comentário ↓

Em contexto de vulnerabilidade social, Cláudia foi vítima de violência sexual aos 14 anos de idade e, por consequência, engravidou, tendo dado à luz Júlia, que foi inicialmente acolhida em instituição pública, dada a impossibilidade material da genitora de cuidar da recém-nascida. Cláudia deixou de prestar assistência à filha desde o seu nascimento. Por determinação judicial, Júlia vive sob a guarda de Fernando e de sua companheira, Marina, desde os primeiros meses de vida, há aproximadamente 10 anos, tendo desenvolvido laços afetivos com seus guardiões. Buscando regularizar a situação familiar, Fernando e Marina foram orientados a propor ação de adoção cumulada com destituição do poder familiar de Cláudia.

Com base nessa situação hipotética e no entendimento do STJ sobre o tema, assinale a opção correta.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Conceito-chave: Multiparentalidade é o reconhecimento de que uma criança pode ter mais de um vínculo parental simultâneo — por exemplo, a mãe biológica e os pais socioafetivos (quem criou, deu amor e cuidado no dia a dia). O poder familiar é o conjunto de direitos e deveres dos pais sobre o filho; a destituição é a perda definitiva desse poder, medida gravíssima que só se aplica quando esgotadas todas as alternativas menos drásticas.

  • (A) Incorreta: Restituir Júlia à mãe biológica após 10 anos de convivência com os guardiões ignoraria o melhor interesse da criança e romperia laços afetivos já consolidados — solução vedada pelo STJ.
  • (B) Incorreta: A alternativa é contraditória: reconhece o vínculo socioafetivo, mas ao mesmo tempo devolve a guarda à mãe biológica, o que na prática desfaz o vínculo afetivo que ela mesma afirma preservar.
  • (C) Correta: É o gabarito porque o STJ entende que, havendo vínculo socioafetivo consolidado e mãe biológica que não exerceu o poder familiar por circunstâncias alheias à sua vontade (violência sexual na adolescência), a solução é a multiparentalidade: mantém-se a guarda com Fernando e Marina, reconhece-se o vínculo socioafetivo, sem destituir Cláudia do poder familiar, assegurando-lhe o direito de visitas.
  • (D) Incorreta: A suspensão do poder familiar é medida temporária e cabível em hipóteses específicas; aqui o problema não é suspender, mas acomodar dois vínculos parentais simultâneos — a suspensão não resolve a situação fática.
  • (E) Incorreta: É a pegadinha mais tentadora: parece a solução "natural" (10 anos de convivência = adoção), mas o STJ afasta a destituição quando a mãe biológica não abandonou voluntariamente a filha — ela foi vítima de violência sexual e não teve condições materiais de cuidar. Destituir seria punir a vítima, não proteger a criança.

Armadilha da banca na letra E: o examinador aposta que o candidato vai raciocinar apenas pelo "tempo de convivência" e pela "adoção como solução padrão". O detalhe que derruba essa alternativa é a origem da situação de vulnerabilidade de Cláudia — violência sexual aos 14 anos. O STJ é firme: não se destitui poder familiar de mãe que não abandonou por vontade própria, ainda que a criança esteja há anos com terceiros. A resposta certa preserva os dois vínculos (biológico e socioafetivo), e não escolhe um em detrimento do outro.

Fonte: CEBRASPE PGE-ES 2025 Procurador do Estado de 1ª Categoria. Reproduzida para fins de estudo.

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