Questão nº 58
Questão de Direito Constitucional · FGV TCE-ES 2022 (nº 58)
O Partido Político Beta, com representação em uma das Casas do Congresso Nacional, foi procurado pela associação dos servidores públicos do Município Alfa para que deflagrasse o controle concentrado de constitucionalidade, de modo que fosse reconhecida a inconstitucionalidade da Lei municipal nº XX/2009. De acordo com esse diploma normativo, o regime jurídico dos servidores públicos municipais seria o regime de emprego público, regido pela Consolidação das Leis do Trabalho. O advogado do Partido Político Beta, ao ser consultado, respondeu, corretamente, que a Lei municipal nº XX é:
- Acompatível com a ordem constitucional apenas em relação aos servidores que não desempenhem atividades típicas do poder público ou prestem serviços públicos;
- Bcompatível com a ordem constitucional apenas em relação aos entes da Administração Pública indireta que exploram atividade econômica em sentido estrito;
- Ccompatível com a ordem constitucional, pois o referido regime pode ser adotado tanto para a Administração Pública direta como para a indireta, incluindo as autarquias; (alternativa correta)
- Dincompatível com a ordem constitucional, pois os entes federativos devem instituir um regime jurídico próprio, ainda que parcialmente coincidente com o regime celetista;
- Eincompatível com a ordem constitucional, pois o regime de emprego público impediria o exercício dos poderes estatais pelo respectivo servidor, que careceria das garantias necessárias.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: O regime jurídico dos servidores públicos é o conjunto de regras que define a relação de trabalho entre o Estado e seus funcionários. No Brasil, há dois regimes principais: o estatutário (regido por leis específicas, de direito público, que confere estabilidade) e o celetista (regime de emprego público, regido pela Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, de direito privado). A Constituição Federal teve diferentes redações sobre qual regime é obrigatório.
- (A) Incorreta: A compatibilidade não se restringe apenas a servidores que não desempenham atividades típicas de Estado. Se o regime celetista fosse permitido para a administração direta e autarquias (como implica o gabarito C), ele seria aplicável a servidores que, sim, desempenham essas atividades.
- (B) Incorreta: Esta alternativa se refere a empresas públicas e sociedades de economia mista, que de fato seguem o regime celetista. Contudo, a alternativa C e a questão abrangem a administração direta e autarquias, tornando esta opção muito restritiva.
- (C) Correta: A Emenda Constitucional nº 19/1998 alterou o artigo 39, caput, da Constituição Federal, removendo a obrigatoriedade do regime jurídico único (estatutário) para a administração pública direta, autarquias e fundações públicas. Durante o período em que essa alteração esteve plenamente em vigor (entre 1998 e 2007, antes da medida cautelar do STF), era constitucionalmente possível que os entes federativos adotassem o regime celetista (de emprego público) para seus servidores, inclusive na administração direta e autarquias. A questão, ao considerar a Lei municipal nº XX/2009 compatível, remete a essa possibilidade constitucional que existiu após a EC 19/98, mesmo que a jurisprudência posterior do STF tenha restabelecido a obrigatoriedade do regime estatutário.
- (D) Incorreta: Esta alternativa descreve a situação atual da jurisprudência do STF (a partir de 2007, com a medida cautelar na ADI 2.135), que restabeleceu a obrigatoriedade do regime estatutário para a administração pública direta, autarquias e fundações públicas. Portanto, embora seja a compreensão predominante hoje, não é o gabarito oficial da questão, que se baseia em um contexto constitucional específico. A armadilha da banca é apresentar uma alternativa que é correta de acordo com a jurisprudência vigente, mas que não é a resposta esperada pela questão, que pode estar testando o conhecimento sobre a evolução histórica do Art. 39 da CF/88.
- (E) Incorreta: A incompatibilidade do regime celetista não se dá necessariamente pela impossibilidade de exercício de poderes estatais ou falta de garantias. O regime estatutário oferece garantias específicas (como a estabilidade), mas a questão da compatibilidade com a ordem constitucional, no contexto do Art. 39, caput, da CF/88, reside na obrigatoriedade ou não do regime jurídico único, e não primariamente nessas razões.
Fonte: FGV TCE-ES 2022 Auditor de Controle Externo - Direito (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.