Questão nº 79

Questão de Direitos da Mulher · FGV DP-MS 2022 (nº 79)

FGV2022Defensor Público SubstitutoDireitos da Mulher
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Texto 1

"`[...]` Os dispositivos que criminalizam o aborto não apenas incidem sobre a raça, como algo que lhe é externo, mas integram um conjunto de fenômenos ligados à estrutura social brasileira, em que raça e sistema penal se constituem mutuamente e determinam as vidas dignas de se proteger e aquelas que se pode deixar morrer. `[...]` Não por acaso, seguimos os alvos preferenciais de violência obstétrica, ocorrências de morte materna, esterilização forçada e até crimes de feminicídio. A adoção de uma política penal para tratar a temática do aborto reforça esses mecanismos que sujeitam mulheres negras a um regime político de subcidadania. Se reconhecemos então o racismo como esse complexo sistema de práticas sociais, práticas institucionais, valores, crenças, aptos a determinar inclusive iniquidades raciais nas mortes evitáveis pela indução do aborto, o princípio constitucional da igualdade, na sua faceta estrutural, impõe ao Estado brasileiro a obrigação positiva de promover condições de proteção igualitárias a mulheres brancas e não brancas em relação a sua vida no momento de praticar um aborto. Durante o processo de deliberação na Constituinte, em 88, a discussão da questão do aborto pela população brasileira se tornou absolutamente inviável, diante da distribuição de poder que foi estabelecida naquele espaço. O pacto sexual e racial foi entabulado por nada menos que 594 parlamentares homens e brancos, dentre os quais havia apenas 26 deputadas mulheres, uma única delas negra, a constituinte Benedita da Silva. Quando o Direito está a serviço de projetos de discriminação sistemática — como vimos ser o caso da criminalização do aborto — no Estado Democrático de Direito exsurge a função da Jurisdição Constitucional de assegurar a prevalência dos Direitos Fundamentais dos grupos discriminados. A chancela de uma política penal para o aborto adotada por uma elite política legiferante, branca, heterossexual masculina, muito distante de ser porta-voz de um consenso social, significaria avalizar esse contrato sexual e racial."

O trecho transcrito (texto 1) é parte da sustentação oral realizada pela defensora pública do Estado do Rio de Janeiro na audiência pública convocada pela ministra Rosa Weber para debater a interrupção voluntária da gravidez a partir da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442.
Sobre o tema, é correto afirmar que:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O planejamento familiar é um direito fundamental que garante a homens e mulheres a liberdade de decidir, de forma responsável e igualitária, sobre ter ou não filhos, quantos ter e o intervalo entre os nascimentos, com acesso a informações e meios para isso.

(A) Correta: Esta alternativa descreve precisamente o conceito de planejamento familiar como um direito humano fundamental, que deve ser exercido com igualdade entre homens e mulheres, autonomia e responsabilidade. Tal conceito está alinhado com os princípios de igualdade e não discriminação que o texto defende, ao criticar a criminalização do aborto e a subcidadania imposta a mulheres, especialmente as negras, no contexto reprodutivo.

(B) Incorreta: A legislação brasileira (Portaria GM/MS nº 1.508/2005 e Portaria GM/MS nº 2.561/2020) não exige a apresentação de Boletim de Ocorrência para a realização do aborto legal em casos de estupro. A declaração da vítima é suficiente, visando evitar a revitimização e garantir o acesso ao direito de forma desburocratizada. A armadilha da banca reside em sugerir uma exigência que, na prática, cria uma barreira indevida ao direito.

(C) Incorreta: Embora a primeira parte da alternativa esteja correta ao definir o planejamento familiar como um conjunto de ações que garante direitos iguais de constituição, limitação ou aumento da prole, a finalidade "controle demográfico" está equivocada. O planejamento familiar, conforme a Constituição Federal (Art. 226, § 7º) e a Lei nº 9.263/96, é uma livre decisão do casal, fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, e não um instrumento de política demográfica estatal.

(D) Incorreta: O atendimento imediato e o fornecimento de informações às vítimas de violência sexual por hospitais da rede SUS são obrigatórios, e não facultativos, conforme estabelecido pela Lei nº 12.845/2013. A palavra "facultativo" torna a alternativa incorreta, pois a lei visa garantir o acesso universal e incondicional a esses serviços essenciais.

Fonte: FGV DP-MS 2022 Defensor Público Substituto (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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