Questão nº 63
Questão de Direito Civil e Processual Civil · FGV CGU 2021 - Tarde (nº 63)
A BX Ltda. foi contratada para fornecer mensalmente material de escritório para a VIC S/A pelo prazo de cinco anos. O material deve ser entregue até o quinto dia útil de cada mês, sob pena de juros e multa. Renato e Almir figuraram como fiadores das obrigações da BX. Em troca, ficou avençado que a VIC depositará na conta-corrente da BX a quantia de dois mil reais em até três dias após a entrega.
Sobre o caso, é correto afirmar que:
- AAlmir pode realizar o cumprimento da obrigação de entregar o material, mas não tem legitimidade para realizar a consignação do pagamento se a VIC se opuser a receber dele;
- Bserá considerado pagamento eficaz a entrega do material realizada a qualquer portador da quitação emitida pela VIC, mesmo que as circunstâncias contrariem a presunção de ele estar autorizado a receber;
- Csalvo disposição em contrário, o preço a ser depositado pela VIC no vencimento não será corrigido monetariamente, ressalvada eventual revisão judicial decorrente de desproporção manifesta por motivos imprevisíveis; (alternativa correta)
- Da entrega do material deve ser realizada mensalmente no domicílio da VIC, se o contrário não decorrer da convenção, da lei, da natureza da obrigação ou das circunstâncias;
- Ese houver no contrato previsão de local específico para realização das entregas, esse local não poderá ser modificado sem o consentimento de ambas as partes, ainda que a VIC reiteradamente aceite que a entrega seja feita em outro local.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O pagamento de uma dívida deve seguir regras sobre quem pode pagar, quem pode receber, onde e quando. O Código Civil estabelece princípios como o nominalismo (dívidas são pagas pelo valor nominal, sem correção, salvo acordo ou lei) e a possibilidade de revisão judicial em casos de onerosidade excessiva por eventos imprevisíveis.
- (A) Incorreta: Almir, como fiador, é um terceiro interessado na extinção da dívida. Terceiros interessados têm legitimidade para consignar o pagamento (depositar judicialmente o valor) se o credor se recusar a recebê-lo, mesmo que se oponha a receber dele. A oposição do credor é justamente uma das causas da consignação (Art. 304, parágrafo único, e Art. 335, I, do Código Civil).
- (B) Incorreta: O pagamento feito ao portador da quitação é eficaz, presumindo-se que ele está autorizado a receber. Contudo, essa presunção é relativa (juris tantum). Se as circunstâncias contrariarem essa presunção (por exemplo, se for evidente que a pessoa não deveria receber), o pagamento não será considerado eficaz. A alternativa afirma "mesmo que as circunstâncias contrariem", o que está em desacordo com o Art. 311 do Código Civil.
- (C) Correta: Esta alternativa está correta. O princípio do nominalismo (Art. 315 do Código Civil) estabelece que as dívidas em dinheiro devem ser pagas pelo valor nominal, sem correção monetária, salvo estipulação em contrário. A ressalva sobre a revisão judicial por desproporção manifesta decorrente de motivos imprevisíveis refere-se à teoria da onerosidade excessiva (Art. 317 e Arts. 478 a 480 do Código Civil), que permite ao juiz corrigir o valor da prestação para restabelecer o equilíbrio contratual.
- (D) Incorreta: A regra geral para o lugar do pagamento é o domicílio do devedor (dívida quesível), salvo se as partes convencionarem de forma diversa, ou se o contrário resultar da lei, da natureza da obrigação ou das circunstâncias (Art. 327 do Código Civil). A alternativa inverte a regra geral ao afirmar que a entrega deve ser no domicílio da VIC (credora) como padrão, quando o padrão é o domicílio do devedor (BX Ltda.). Embora a natureza da obrigação de fornecimento possa levar à entrega no domicílio do credor, a afirmação como regra geral sem a ressalva da inversão da regra é imprecisa.
- (E) Incorreta: Embora a modificação de um contrato exija, em regra, o consentimento de ambas as partes, a aceitação reiterada de uma conduta diferente da prevista no contrato pode gerar a supressio (perda de um direito pelo não exercício) ou a surrectio (aquisição de um direito pelo exercício continuado de uma situação de fato), com base no princípio da boa-fé objetiva (Art. 422 do Código Civil). Se a VIC reiteradamente aceita a entrega em outro local, ela pode perder o direito de exigir subitamente o local original sem aviso prévio, ou pode-se entender que houve uma modificação tácita do contrato.
Fonte: FGV CGU 2021 - Tarde Auditor Federal de Finanças e Controle - Área Correição e Combate à Corrupção (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.