Questão nº 95

Questão de História da Bahia · FCC DPE-BA 2016 (nº 95)

FCC2016Defensor PúblicoHistória da Bahia
Gabarito: Dver comentário ↓

Considere o texto a seguir, publicado em um jornal baiano em 1905:

“Estamos na Costa da África? É o que se torna necessário ser averiguado pela polícia, porquanto se lá não estamos também de lá não nos separam grande distância os nossos costumes negreiros. E a prova é que, fechando ouvidos a repetidas queixas da imprensa e de particulares, a polícia consente que dentro da cidade, porque é no outeiro que o vulgo denominou de ‘Cucuí’, descendentes vadios de negros selvagens façam candomblés, todos os dias, à noite principalmente, incomodando com um bate-bate dos pecados o sono tranqüilo da população. Já lá se foram os tempos dos ‘feitiço’ e dos ‘candomblés’, e porque atravessamos um século de largo progresso e ampla civilização, apelamos para a energia e a boa vontade, ainda não desmentidas, do sr.(...) sub-comissário de polícia, certos de que s.s. porá ponto final na folia macabra dos negros desocupados do ‘Cucuí’.”

(Jornal A ORDEM. 21 out. 1905. p. 1, Apud SANTOS, Edmar Ferreira. O poder dos candomblés: perseguição e resistência no Recôncavo da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2009. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ufba/179/1/O%20poder%20dos%20candombles.pdf. Acesso em: 11 de julho de 2016)

A partir da leitura do texto acima, é correto afirmar que o autor desse texto

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O texto reflete o preconceito racial e religioso presente na sociedade brasileira do início do século XX, onde as manifestações culturais de matriz africana eram vistas como um entrave ao progresso e civilização e associadas à desordem social e à vadiagem.

  • (A) Incorreta: O texto não foca apenas em "trabalhadores" e o incômodo não é só pelo horário, mas pela natureza da prática e a identidade dos praticantes, vistos como "vadios" e "selvagens".
  • (B) Incorreta: Embora use as expressões e denuncie a prática em um local específico, apelando à polícia, o texto não faz menção à Igreja como parte da solução ou do combate, o que a torna imprecisa. Armadilha: Esta alternativa é tentadora porque muitos elementos estão corretos, mas a inclusão da "Igreja" como agente de combate não é mencionada no texto, que se dirige exclusivamente ao sub-comissário de polícia.
  • (C) Incorreta: O autor não pede investigação da autenticidade das matrizes africanas; ele condena as práticas, já as associando pejorativamente a "costumes negreiros" da "Costa da África". O uso de "nossos" é irônico, criticando a presença dessas práticas na Bahia.
  • (D) Correta: O texto associa claramente os praticantes à "vadiagem" ("descendentes vadios de negros selvagens", "negros desocupados"), apela para um discurso de "largo progresso e ampla civilização" (ordem e progresso), acusa a polícia de "consentir" (tolerar) e exclui os negros da "população" que tem o "sono tranquilo", indicando que eles não fazem parte do grupo que merece proteção contra o incômodo.
  • (E) Incorreta: A frase "Já lá se foram os tempos..." é um desejo ou uma ironia, não uma constatação de que a prática está extinta ou que a imprensa a combateu com êxito. Pelo contrário, o jornal está reclamando que a prática ainda ocorre e pede ação policial.

Fonte: FCC DPE-BA 2016 Defensor Público (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.

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