Questão nº 96

Questão de História da Bahia · FCC DPE-BA 2016 (nº 96)

FCC2016Defensor PúblicoHistória da Bahia
Gabarito: Cver comentário ↓

Considere o trecho a seguir:

“(...) logo após tomar todas as medidas necessárias para a extinção definitiva do tráfico, a Bahia passou da posição de importador à condição de exportador de escravos. Dessa forma, negros a todo preço seriam deslocados do norte para o sul já nos primeiros anos da década de 1850, num movimento contínuo, e que, apesar de altos e baixos, só se encerraria na década de 1880”.

(SILVA, Ricardo Tadeu Caires. A participação da Bahia no tráfico interprovincial de escravos (1851-1881). p. 2. In: 3o Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Universidade Federal de Santa Catarina, 2007. Disponível em: http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos3/ricardo%20tadeu.pdf. Acesso em: 10 de julho de 2016)

Para compreensão histórica do fenômeno descrito acima, devem ser considerados os seguintes fatores:

I. A alta do preço do café, no mercado mundial, que impulsionou sua produção no sudeste e a demanda por mão de obra escrava, de difícil aquisição via tráfico internacional a partir de 1850.
II. O impacto da Guerra de Secessão norte-americana, que prejudicou as exportações do algodão produzido no nordeste e obrigou os proprietários a se desfazerem de parte de seus contingentes de escravos.
III. A importância da Bahia no tráfico atlântico, província onde os traficantes resistiram mesmo após a extinção do tráfico, com certo apoio das autoridades locais.
IV. A pujança econômica da produção canavieira, que atraiu investimentos na modernização dos engenhos, processo que resultou na dispensa de mão de obra.

Está correto APENAS o que se afirma em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

O conceito-chave aqui é a transição do tráfico de escravos no Brasil após a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibiu o tráfico transatlântico. Com o fim da importação de africanos, o Brasil viu surgir um intenso tráfico interprovincial, onde escravos eram deslocados de regiões com economia estagnada (como o Nordeste) para as regiões em crescimento (como o Sudeste cafeeiro).

  • (A) Incorreta: A alternativa C é a correta.
  • (B) Incorreta: A alternativa II contém uma informação incorreta sobre o impacto da Guerra de Secessão no algodão nordestino, e a alternativa IV não descreve o principal motor do tráfico interprovincial.
  • (C) Correta:
    • I. A alta do preço do café, no mercado mundial, que impulsionou sua produção no sudeste e a demanda por mão de obra escrava, de difícil aquisição via tráfico internacional a partir de 1850. Este é um fator crucial. A proibição do tráfico atlântico (Lei Eusébio de Queirós, 1850) cortou a fonte externa de escravos, enquanto a expansão da cafeicultura no Sudeste gerava uma enorme demanda por mão de obra. Isso criou um mercado interno para escravos, impulsionando seu deslocamento das províncias do Norte para as do Sul.
    • III. A importância da Bahia no tráfico atlântico, província onde os traficantes resistiram mesmo após a extinção do tráfico, com certo apoio das autoridades locais. A Bahia era um dos principais portos do tráfico atlântico e possuía uma vasta população escravizada, além de uma infraestrutura e redes de traficantes já estabelecidas. A resistência à abolição do tráfico atlântico demonstra a força desse sistema na província. Com o fim do tráfico externo, essa estrutura e o grande contingente de escravos tornaram a Bahia uma fonte natural para o tráfico interprovincial, adaptando-se à nova realidade e exportando escravos para o Sudeste.
  • (D) Incorreta: A alternativa II apresenta uma premissa incorreta sobre o impacto da Guerra de Secessão no algodão nordestino, e a alternativa IV não é o principal fator.
  • (E) Incorreta: A alternativa II contém uma informação incorreta.

Comentário do distrator mais tentador (Alternativa II):
(II) O impacto da Guerra de Secessão norte-americana, que prejudicou as exportações do algodão produzido no nordeste e obrigou os proprietários a se desfazerem de parte de seus contingentes de escravos. Esta é uma armadilha. A Guerra de Secessão (1861-1865) nos EUA, ao interromper a produção e exportação de algodão americano, na verdade beneficiou temporariamente a produção de algodão em outras partes do mundo, incluindo o Nordeste brasileiro. Houve um "boom" do algodão brasileiro, com aumento de preços e demanda. Portanto, não houve um "prejuízo" que obrigasse os proprietários a vender escravos por essa razão; pelo contrário, o aumento da produção poderia até ter aumentado a demanda por mão de obra localmente. O principal motivo para a venda de escravos do Nordeste era a forte demanda e os preços mais altos oferecidos pelo Sudeste cafeeiro, e não uma crise na produção de algodão.

Fonte: FCC DPE-BA 2016 Defensor Público (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.

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