Questão nº 2
Questão de Direito Penal · FGV MP-RJ Promotor 2025 (nº 2)
Catarina, mãe de Júnior, de 5 anos de idade, ao passear com o
filho no jardim zoológico, decidiu fotografá-lo em frente à jaula
do tigre, e, para tanto, pediu que a criança se posicionasse bem
próxima à grade.
Em dado momento, passou pela cabeça de Catarina a
possibilidade de um acidente, caso a criança se aproximasse
demais da jaula, porém ela supôs, sinceramente, que isso não iria
acontecer, visto que o animal estava posicionado nos fundos da
jaula. Quando Júnior encostou na grade, o tigre rapidamente foi
ao seu encontro, e, com um golpe de sua pata dianteira
esquerda, rasgou a garganta da criança, que morreu
imediatamente.
Diante do caso narrado, Catarina
- Anão cometeu crime, pois é um caso de perdão judicial.
- Bcometeu o crime de homicídio doloso (dolo eventual).
- Ccometeu o crime de homicídio culposo (culpa consciente). (alternativa correta)
- Dcometeu o crime de homicídio culposo (culpa inconsciente).
- Enão cometeu crime, pois a morte da criança decorreu de acidente.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O dolo eventual ocorre quando a pessoa prevê o risco de um resultado, mas mesmo assim age, assumindo esse risco ou sendo indiferente a ele. Já a culpa consciente acontece quando a pessoa prevê o risco, mas acredita sinceramente que o resultado danoso não vai ocorrer, confiando em sua habilidade ou na sorte.
(A) Incorreta: O perdão judicial é uma causa de extinção da punibilidade que, em casos de homicídio culposo, pode ser aplicada quando as consequências do crime atingem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torna desnecessária. Contudo, a aplicação do perdão judicial não significa que não houve crime, apenas que a pena não será aplicada. A questão pede a tipificação da conduta.
(B) Incorreta: O dolo eventual exige que o agente, ao prever o risco, assuma o resultado ou seja indiferente a ele ("que se dane se acontecer"). No caso, Catarina previu a possibilidade do acidente, mas supôs, sinceramente, que isso não iria acontecer, o que demonstra que ela não assumiu o risco, mas sim acreditou na sua não ocorrência. Esta é a armadilha da banca: confundir a previsão do risco (presente tanto na culpa consciente quanto no dolo eventual) com a aceitação ou indiferença ao resultado (característica do dolo eventual).
(C) Correta: Catarina previu a possibilidade de um acidente ("passou pela cabeça de Catarina a possibilidade de um acidente"), mas, apesar disso, agiu acreditando sinceramente que o resultado danoso (a morte do filho) não ocorreria, confiando que o animal estava posicionado nos fundos da jaula. Essa conduta se enquadra perfeitamente na definição de culpa consciente, onde há previsão do risco, mas não aceitação ou indiferença ao resultado, e sim a crença na sua não ocorrência.
(D) Incorreta: A culpa inconsciente ocorre quando o agente não prevê o resultado que era previsível, agindo com negligência, imprudência ou imperícia. No caso, Catarina expressamente previu a possibilidade do acidente ("passou pela cabeça de Catarina a possibilidade de um acidente"), o que afasta a culpa inconsciente.
(E) Incorreta: A morte da criança não decorreu de um acidente no sentido de um evento imprevisível e inevitável. A conduta de Catarina, ao colocar a criança em situação de risco previsível e não evitado, configura uma ação imprudente que contribuiu diretamente para o resultado, caracterizando um crime culposo e não um mero acidente sem responsabilidade penal.
Fonte: FGV MP-RJ Promotor 2025 Promotor de Justiça Substituto (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.