Questão nº 3

Questão de Direito Constitucional · FCC DPE-AP 2017 (nº 3)

FCC2017Defensor Público do Estado do AmapáDireito Constitucional
Gabarito: Cver comentário ↓

Sob o fundamento de passar por situação de drástica redução na arrecadação tributária e da necessidade de atender aos percentuais constitucionais de aplicação de recursos nas áreas de educação e saúde, determinado Estado da federação suspende a realização de investimentos destinados à execução de obras em todas as áreas de atuação do poder público. Nesse contexto, são paralisados procedimentos internos preparatórios de licitações para realização de obras em unidades prisionais do Estado, entre as quais, uma que enfrenta situação de superlotação e precariedade extrema das condições a que submetidos os que ali cumprem pena, conforme atestado em vistoria realizada por órgão correicional do sistema prisional estadual. Diante disso, a Defensoria Pública estadual pretende ir a juízo, para compelir o Estado a realizar obras emergenciais na unidade prisional em questão.

Nessa situação, à luz da legislação pertinente e da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a Defensoria Pública

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

O conceito-chave aqui é que, embora o Estado possa alegar falta de recursos (a chamada Reserva do Possível) ou a necessidade de respeitar a Separação de Poderes, esses argumentos não são absolutos. Eles cedem quando estão em jogo direitos fundamentais que compõem o Mínimo Existencial – as condições básicas para uma vida digna, como a integridade física e moral, especialmente para grupos vulneráveis como os detentos.

(A) Incorreta: A Defensoria Pública tem legitimidade constitucional (Art. 134 da CF/88) e legal para defender os direitos de grupos vulneráveis, incluindo presos, e pode ajuizar ações coletivas como a Ação Civil Pública.
(B) Incorreta: A jurisprudência do STF consolidou o entendimento de que a decisão da Administração Pública não é imune ao controle judicial, especialmente quando há violação de direitos fundamentais e do mínimo existencial, relativizando a reserva do possível e a separação de poderes.
(C) Correta: A Defensoria Pública possui legitimidade para ajuizar Ação Civil Pública para proteger direitos coletivos e individuais homogêneos de detentos. O STF entende que a dignidade da pessoa humana e a integridade física e moral dos presos são direitos que se sobrepõem aos argumentos da reserva do possível e da separação de poderes em casos de grave omissão estatal, permitindo a intervenção judicial para compelir o Estado a agir (vide ADPF 347 e RE 641.320).
(D) Incorreta: Embora a alternativa reconheça a legitimidade da Defensoria Pública e a possibilidade de controle jurisdicional, ela erra ao afirmar que a iniciativa "não logrará êxito". A situação de "precariedade extrema" e "superlotação" na unidade prisional configura violação do mínimo existencial e da dignidade humana, o que, conforme a jurisprudência do STF, afasta a discricionariedade administrativa e permite a intervenção judicial.
(E) Incorreta: A Defensoria Pública possui legitimidade, e o Judiciário pode impor obrigações de fazer ao Estado nessas situações. No entanto, o instrumento processual adequado para iniciar essa demanda não é a reclamação. A reclamação é utilizada para preservar a competência do STF ou garantir a autoridade de suas decisões (como súmulas vinculantes), e não para iniciar uma ação que busque compelir o Estado a realizar obras. O instrumento correto seria uma Ação Civil Pública. Além disso, não há uma súmula vinculante com essa exata redação que estaria sendo contrariada diretamente por uma omissão inicial do Estado.

Fonte: FCC DPE-AP 2017 Defensor Público do Estado do Amapá (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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