Questão nº 2

Questão de Direito Constitucional · FCC DPE-AP 2017 (nº 2)

FCC2017Defensor Público do Estado do AmapáDireito Constitucional
Gabarito: Bver comentário ↓

Em voto proferido quando da concessão de medida cautelar em sede de arguição de descumprimento de preceito fundamental, o Ministro Relator, apoiando-se em técnica empregada por Corte Constitucional estrangeira, entendeu que estava comprovada, no caso, situação de violação generalizada de direitos fundamentais e incapacidade reiterada e persistente das autoridades públicas em modificar a situação, sendo que a superação das transgressões exigia a atuação não apenas de um órgão, e sim de uma pluralidade de autoridades. Mais adiante, afirmou o Relator que, em situações tais, ao Tribunal cabe retirar as autoridades públicas do estado de letargia, provocar a formulação de novas políticas públicas, aumentar a deliberação política e social sobre a matéria e monitorar o sucesso da implementação das providências escolhidas, assegurando, assim, a efetividade prática das soluções propostas.

Cuida-se, no caso, de técnica de

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

O Estado de Coisas Inconstitucional (ECI) é uma técnica de controle de constitucionalidade que reconhece a violação massiva e generalizada de direitos fundamentais, causada por uma falha estrutural e sistêmica das autoridades públicas em agir, exigindo uma atuação coordenada de múltiplos órgãos para superar a situação.

  • (A) Incorreta: A interpretação conforme a Constituição busca dar um sentido constitucional a uma norma que admite múltiplas interpretações, sem alterar seu texto ou declarar sua inconstitucionalidade. O caso descrito vai muito além de uma mera interpretação, tratando de falhas sistêmicas e necessidade de novas políticas.
  • (B) Correta: A descrição se encaixa perfeitamente no conceito de Estado de Coisas Inconstitucional. Os elementos-chave são a "violação generalizada de direitos fundamentais", a "incapacidade reiterada e persistente das autoridades públicas em modificar a situação", a necessidade de "atuação não apenas de um órgão, e sim de uma pluralidade de autoridades", e o papel do Tribunal de "retirar as autoridades públicas do estado de letargia, provocar a formulação de novas políticas públicas" e "monitorar a implementação". Essa técnica, originária da Corte Constitucional colombiana, foi adotada pelo STF em casos como o do sistema prisional.
  • (C) Incorreta: Uma decisão manipulativa de efeitos aditivos ocorre quando o Tribunal declara a inconstitucionalidade de uma norma por omissão, acrescentando algo ao seu texto para torná-la constitucional. O problema aqui não é a omissão de um elemento específico em uma norma, mas uma falha estrutural e sistêmica na garantia de direitos.
  • (D) Incorreta: Uma decisão manipulativa de efeitos substitutivos ocorre quando o Tribunal declara a inconstitucionalidade de uma parte da norma e a substitui por outra para adequá-la à Constituição. Não se trata de substituir um trecho de uma lei, mas de enfrentar uma crise institucional ampla.
  • (E) Incorreta: A declaração de inconstitucionalidade sem pronúncia de nulidade (ou modulação de efeitos) ocorre quando o Tribunal reconhece a inconstitucionalidade de uma lei, mas decide que ela continuará produzindo efeitos por um tempo determinado, geralmente para evitar um vácuo normativo ou impactos sociais graves. Embora possa lidar com questões de impacto sistêmico, o foco principal é a validade da norma e seus efeitos temporais, e não a determinação de um plano de ação complexo e multi-institucional para superar uma falha estrutural, que é a essência do ECI. A armadilha é que ambas as técnicas podem envolver a preocupação com as consequências de uma decisão, mas o ECI vai além, diagnosticando uma falência estatal e exigindo uma resposta coordenada e monitorada.

Fonte: FCC DPE-AP 2017 Defensor Público do Estado do Amapá (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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