Questão nº 64
Questão de Psicologia · FGV TJ-AP 2024 (nº 64)
No conhecido texto A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos (1906), Freud delimita as diferenças entre o neurótico e o criminoso.
De acordo com a teoria freudiana, analise as afirmativas a seguir.
I. No neurótico, o segredo está oculto de sua própria consciência, ao passo que o criminoso simula conscientemente ignorar o segredo.
II. O investigador pode ser induzido a erro por um neurótico que, embora inocente, reage como culpado devido a um oculto sentimento de culpa e que se apodera da acusação.
III. No tratamento analítico, o neurótico esforça-se para combater as suas próprias resistências. Já no caso do criminoso, a resistência é de caráter consciente e ele tende a não cooperar com a investigação criminal.
Está correto o que se afirma em:
- Asomente I;
- Bsomente I e II;
- Csomente I e III;
- Dsomente II e III;
- EI, II e III. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Freud, em seu texto de 1906, diferencia o neurótico do criminoso principalmente pela relação que cada um tem com a culpa, o segredo e a resistência. Para o neurótico, os conflitos e segredos são inconscientes, gerando um sofrimento interno. Para o criminoso, o segredo do ato ilícito é consciente, e sua "resistência" é uma estratégia deliberada para evitar a punição.
- (A) Incorreta: A afirmação I está correta.
- (B) Incorreta: As afirmações I e II estão corretas.
- (C) Incorreta: As afirmações I e III estão corretas.
- (D) Incorreta: As afirmações II e III estão corretas.
- (E) Correta: Todas as afirmações estão corretas.
- I. No neurótico, o segredo está oculto de sua própria consciência, ao passo que o criminoso simula conscientemente ignorar o segredo. Esta afirmação é fundamental para Freud. O neurótico tem seus conflitos e desejos reprimidos no inconsciente, ele realmente não sabe o que o aflige. O criminoso, por outro lado, sabe o que fez e conscientemente esconde ou nega o fato.
- II. O investigador pode ser induzido a erro por um neurótico que, embora inocente, reage como culpado devido a um oculto sentimento de culpa e que se apodera da acusação. Este é um ponto crucial do texto de Freud. Um neurótico pode ter um sentimento de culpa inconsciente (não relacionado ao crime em questão, mas a conflitos internos, como o Complexo de Édipo) tão forte que, ao ser acusado, ele se "apropria" da culpa, confessando um crime que não cometeu, pois a acusação ressoa com sua necessidade inconsciente de punição.
- III. No tratamento analítico, o neurótico esforça-se para combater as suas próprias resistências. Já no caso do criminoso, a resistência é de caráter consciente e ele tende a não cooperar com a investigação criminal. A resistência do neurótico na análise é inconsciente; ele quer melhorar, mas suas defesas psíquicas o impedem de acessar memórias ou desejos reprimidos, gerando um esforço para superá-las. A resistência do criminoso, no contexto legal, é consciente e intencional; ele mente, omite ou se recusa a cooperar para evitar a condenação.
Fonte: FGV TJ-AP 2024 Analista Judiciário - Psicólogo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.