Questão nº 63
Questão de Direito Constitucional · FGV TCE-GO 2024 (nº 63)
O Tribunal de Contas do Estado Alfa, ao apreciar as contas de Maria, ordenadora de despesas em determinado ente da Administração Pública indireta sujeito à sua fiscalização, constatou o desvio de recursos públicos. Por tal razão, as contas foram rejeitadas, foi aplicada a sanção de multa a Maria e imputado o débito correspondente.
Considerando os balizamentos constitucionais afetos a essa temática, e os efeitos da decisão do Tribunal de Contas, é correto afirmar que.
- Aem razão da natureza do ilícito praticado, é imprescritível a pretensão de ressarcimento ao erário fundada nessa decisão.
- Ba decisão do Tribunal de Contas, no exercício de sua competência constitucional, forma um título executivo judicial.
- Ccomo a decisão analisou as contas, não julgando Maria pelo ilícito praticado, é prescritível a pretensão de ressarcimento ao erário. (alternativa correta)
- Da imputação de débito é incompatível com a decisão de rejeição das contas, devendo ser objeto de processo autônomo, o que retira a eficácia do título.
- Ecaso não haja o adimplemento voluntário do dever de ressarcir o erário, a decisão deve ser inscrita em dívida ativa, não havendo prazo limite para a sua cobrança.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Quando um Tribunal de Contas analisa as contas de um gestor e encontra irregularidades que causam prejuízo ao dinheiro público, ele pode rejeitar as contas, multar o responsável e determinar que ele devolva o valor desviado (imputar débito). A questão central é se essa dívida com o erário (o dinheiro público) tem um prazo para ser cobrada (é prescritível) ou se pode ser cobrada a qualquer tempo (é imprescritível).
(A) Incorreta: A pretensão de ressarcimento ao erário (devolução do dinheiro público) é, em regra, prescritível. A imprescritibilidade prevista na Constituição (Art. 37, § 5º) aplica-se apenas aos atos de improbidade administrativa que causam dano ao erário, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal (Tema 899 de Repercussão Geral). O simples desvio constatado pelo Tribunal de Contas, por si só, não torna a pretensão imprescritível. Armadilha: O termo "desvio de recursos públicos" é grave e pode levar a crer que a imprescritibilidade é automática, mas a jurisprudência restringe essa exceção aos casos de improbidade administrativa.
(B) Incorreta: A decisão do Tribunal de Contas que imputa débito ou multa tem eficácia de título executivo extrajudicial, e não judicial, conforme o Art. 71, § 3º, da Constituição Federal. Isso significa que ela pode ser cobrada diretamente na Justiça, mas não é uma sentença judicial.
(C) Correta: A decisão do Tribunal de Contas, embora determine a devolução de valores, é de natureza administrativa e julga as contas e a responsabilidade do gestor. Ela não se confunde com um julgamento judicial de improbidade administrativa que, este sim, poderia tornar a pretensão de ressarcimento imprescritível. Portanto, como regra geral, a pretensão de ressarcimento ao erário decorrente de decisão de Tribunal de Contas é prescritível, a menos que haja uma ação judicial específica que qualifique o ato como improbidade administrativa.
(D) Incorreta: A imputação de débito (determinação de devolver o dinheiro) é perfeitamente compatível e frequentemente ocorre junto com a rejeição das contas. O Tribunal de Contas tem competência para ambas as ações na mesma decisão, conforme o Art. 71, VIII, da Constituição Federal.
(E) Incorreta: Embora a decisão que imputa débito seja inscrita em dívida ativa para cobrança, a pretensão de ressarcimento ao erário não é imprescritível como regra geral. Ela possui um prazo limite para sua cobrança (é prescritível), salvo se decorrer de ato de improbidade administrativa, como explicado na alternativa A.
Fonte: FGV TCE-GO 2024 Analista de Controle Externo - Jurídica (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.