Questão nº 51
Questão de Auditoria · FGV CVM 2024 (nº 51)
Suponha que o auditor independente da companhia industrial XYZ tenha concluído o planejamento da auditoria e a etapa que teve como propósito identificar e avaliar os riscos de distorção relevante, que servirá de subsídio para a implementação das respostas aos riscos avaliados de distorção relevante. Nesse contexto, sabe-se que o auditor independente identificou que:
I. em função do grande número de produtos industrializados pela XYZ, o processo de custeio desses produtos é complexo e requer grande número de parâmetros e intervenções manuais;
II. são feitas diversas transferências de informações de sistemas dedicados (folha de pagamentos e patrimônio) para o sistema de custeio de produtos, onde é feita a alocação no custo dos produtos acabados das despesas de salários, encargos e depreciação de imobilizado fabril, não havendo conferência da integridade e adequação dessas despesas transferidas para os estoques; e
III. os parâmetros e cálculos do processo de custeio dos produtos acabados são verificados por profissional da contabilidade societária que não se envolve na rotina de custeio; esse profissional é responsável pelo registro contábil do valor dos estoques e do custo dos produtos vendidos no livro razão geral; durante 8 meses, esse profissional esteve ausente da empresa e suas funções foram acumuladas na mesma pessoa responsável pelo processamento do custeio.
Nesse contexto, no tocante à avaliação de riscos de distorção relevante e das respostas aos riscos avaliados, é correto afirmar que:
- Ao auditor deve realizar testes do controle de verificação independente realizado pela área de contabilidade societária sobre os parâmetro e cálculos do processo de custeio;
- Ba observação descrita no item I configura-se como risco de controle, o qual, consequentemente, só poderá ser tratado pelo auditor independente por meio de testes substantivos;
- Ca observação descrita no item II configura-se como risco inerente, de modo que poderá ser tratado pelo auditor independente por meio de testes de controle;
- Das observações descritas nos itens II e III indicam riscos de controle para os quais o auditor deverá planejar respostas, particularmente por meio de testes substantivos, que permitam que o risco de detecção seja reduzido; (alternativa correta)
- Eas observações descritas nos itens I, II e III indicam riscos de detecção.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O Risco de Distorção Relevante (RDR) é a chance de que as demonstrações financeiras contenham erros significativos antes mesmo da auditoria. Ele é composto pelo Risco Inerente (a suscetibilidade natural de uma conta ou transação a um erro, sem considerar controles) e pelo Risco de Controle (a chance de que os controles internos da empresa não previnam, detectem ou corrijam um erro). O auditor, ao identificar um RDR alto, precisa aumentar seus próprios procedimentos para reduzir o Risco de Detecção (o risco de que o auditor não encontre um erro existente).
- (A) Incorreta: O item III afirma que o profissional responsável pela verificação esteve ausente por 8 meses e suas funções foram acumuladas. Isso indica que o controle de verificação independente não estava operando ou estava ineficaz por um período significativo. Testar um controle que se sabe ser ineficaz ou ausente não é a resposta adequada; o auditor precisaria de procedimentos substantivos.
- (B) Incorreta: A observação I ("processo de custeio... complexo e requer grande número de parâmetros e intervenções manuais") configura-se primariamente como Risco Inerente, pois a complexidade aumenta a suscetibilidade a erros por sua própria natureza. Embora possa impactar o risco de controle, a complexidade em si é inerente. Além disso, não é verdade que só possa ser tratado por testes substantivos; se houvesse controles robustos para gerenciar a complexidade, eles poderiam ser testados.
- (C) Incorreta: A observação II ("não havendo conferência da integridade e adequação dessas despesas transferidas") descreve a ausência de um controle interno, ou seja, uma falha de controle. Portanto, configura-se como Risco de Controle, e não risco inerente. Se o controle está ausente ou é ineficaz, o auditor não pode confiar nele e, consequentemente, não faria sentido realizar testes de controle para atestar sua eficácia.
- (D) Correta: As observações II e III descrevem falhas nos controles internos da companhia:
- Item II: Ausência de conferência na transferência de dados (falha de controle).
- Item III: Ausência do profissional revisor e acúmulo de funções (falha na segregação de funções e na revisão independente, ambas falhas de controle).
Quando o Risco de Controle é avaliado como alto (devido a controles ausentes ou ineficazes), o auditor não pode confiar nos controles da entidade. Para compensar esse risco elevado, o auditor precisa aumentar a extensão e/ou a natureza dos seus próprios procedimentos de auditoria, ou seja, realizar mais testes substantivos. O objetivo desses testes substantivos é reduzir o Risco de Detecção a um nível aceitável, garantindo que o auditor detecte quaisquer distorções relevantes.
- (E) Incorreta: As observações I, II e III descrevem condições da entidade que afetam o Risco Inerente (item I) e o Risco de Controle (itens II e III). Juntos, eles formam o Risco de Distorção Relevante (RDR). O Risco de Detecção é o risco de que o auditor não detecte uma distorção, e ele é uma consequência da avaliação do RDR e da resposta do auditor, não uma característica da entidade.
Fonte: FGV CVM 2024 Inspetor CVM - Contabilidade e Auditoria (Perfil 3) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.