Questão nº 15
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 15)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 11 a 15.
Uma amiga me disse que em alguns cursos da Universidade de Princeton o celular e o tablet foram proibidos porque os estudantes filmavam e fotografavam as aulas, ou simplesmente brincavam com joguinhos eletrônicos. A proibição do uso de aparelhos eletrônicos em sala de aula numa das maiores universidades dos Estados Unidos não é desprezível. O celular na palma da mão desconcentra o estudante e abole uma prática antiga: a caligrafia.
Dos milenares hieróglifos egípcios gravados em pedra e palavras escritas em pergaminho à mais recente prescrição médica, a caligrafia tem uma longa história. Mas essa história − que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão − parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela.
Lembro uma entrevista com Roland Barthes, em que o crítico francês dizia que as correções das provas tipográficas dos romances de Balzac pareciam fogos de artifícios. É uma bela imagem do efeito estético da caligrafia no papel impresso. Quando pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos, fiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes, e admirado com a obsessão de Balzac em acrescentar, cortar e substituir palavras e frases, e alterar a pontuação. O autor de Ilusões Perdidas não poupava esforço para alcançar o que desejava expressar, e esse empenho tão grande acabou por exauri-lo quando escrevia seu último romance.
Mas há beleza também na caligrafia torta e hesitante de uma criança, numa carta de amor escrita a lápis, na mensagem pintada à mão no para-choque de um caminhão, no muro grafitado da cidade poluída.
Num de seus poemas memoráveis, “O Sobrevivente”, Carlos Drummond de Andrade escreveu à mão e depois datilografou: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. / Se você quer fumar um charuto aperte um botão”.
Na mão que move a escrita há um gesto corporal atávico, um desejo da nossa ancestralidade, que a maquininha subtrai, ou até mesmo anula. Ainda escrevo alguns textos à mão, antes de digitá-los no computador. No trabalho diário de um jornalista, isso é quase impossível, mas na escrita de uma crônica, pego a caneta e o papel e exercito minha pobre caligrafia.
Talvez eu seja o antepenúltimo dinossauro. Mal escrevo essa palavra, vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado. É um pássaro que desconheço; pousou num galho do manacá florido, e seu canto misterioso me remete ao livro A Linguagem dos Pássaros , escrito no século 12 pelo poeta persa Farid Ud-din Attar. Nele, a caligrafia é sinônimo de “beleza da escrita, linguagem da mão e nobreza do sentimento”.
Está correta a redação alternativa do seguinte segmento do texto:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 11, questão nº 12, questão nº 13, questão nº 14.
- ARevela-se na mão que move a escrita um gesto corporal atávico e uma busca por nossa ancestralidade, cuja a maquininha subtrai ou até mesmo anula.
- BA caligrafia tem uma longa história, da qual remonta os milenares hieróglifos egípcios, que já se gravava em pedra e engloba, desde as palavras escritas em pergaminho até a mais recente receita médica.
- CA longa história da caligrafia, que assinala uma forte relação da palavra com o gesto da mão, parece fenecer com o surgimento do minúsculo teclado do celular. (alternativa correta)
- DEmbora seja quase impossível escrever textos à mão no trabalho cotidiano de um jornalista, ainda se escreve alguns, antes de lhes copiar para o computador.
- EÉ necessário atenção a proibição de aparelhos eletrônicos em sala de aula numa das maiores universidades dos Estados Unidos, na medida que os alunos muitas vezes usavam-lhes para brincar com joguinhos eletrônicos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Ao reescrever uma frase, é fundamental manter o sentido original e a correção gramatical, adaptando a estrutura semântica e sintática de forma adequada.
(A) Incorreta: A construção "cuja a maquininha" apresenta um erro de regência e pleonasmo. O pronome possessivo "cuja" já inclui a ideia de posse ("da qual"), tornando o artigo "a" redundante e gramaticalmente incorreto. O correto seria "cuja maquininha".
(B) Incorreta: Há erros de regência e concordância. O verbo "remontar" é transitivo indireto e pede a preposição "a" ("remontar a"). Além disso, se "hieróglifos" é o sujeito, o verbo deveria estar no plural: "remontam". A frase "que já se gravava em pedra" também está incorreta, pois "hieróglifos" (plural) exige "que já se gravavam".
(C) Correta: A alternativa mantém o sentido original do trecho ("Mas essa história − que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão − parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela"). As substituições de "essa história" por "A longa história da caligrafia", "marca" por "assinala" e "advento" por "surgimento" são sinônimas e não alteram o significado. A adição de "do celular" para especificar o teclado é consistente com o contexto do texto.
(D) Incorreta: O pronome "lhes" é empregado incorretamente. O verbo "copiar" é transitivo direto, e o pronome oblíquo correspondente a "textos" (objeto direto plural) deveria ser "os" (antes do verbo) ou "copiá-los" (depois do verbo, com ênclise). "Lhes" é usado para objeto indireto.
(E) Incorreta: Apresenta múltiplos erros. A regência nominal de "atenção" exige a preposição "a" com crase ("atenção à proibição") ou concordância verbal ("É necessária atenção"). A conjunção "na medida que" está incorreta; o correto seria "na medida em que" (causa/explicação) ou "à medida que" (proporção). Por fim, "usavam-lhes" está errado, pois "usar" é transitivo direto e o pronome correto seria "usavam-nos" ou "os usavam".
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.