Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 6)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às perguntas de números 1 a 9.
As crianças gostam de brincadeiras que sejam imitativas e repetitivas, mas, ao mesmo tempo, inovadoras. Firmam-se no que lhes é conhecido e seguro, e exploram o que é novo e nunca foi experimentado.
O termo “arremedo” pode implicar algum grau de intenção, mas imitar, ecoar ou reproduzir são propensões psicológicas (e até fisiológicas) universais que vemos em todo ser humano e em muitos animais.
Merlin Donald, em Origens do pensamento moderno*, faz uma distinção entre arremedo, imitação e mimese: o arremedo é literal, uma tentativa de produzir uma duplicata o mais exata possível. A imitação não é tão literal quanto o arremedo. A mimese adiciona uma dimensão representativa à imitação. Em geral, incorpora o arremedo e a imitação a um fim superior, o de reencenar e representar um evento ou relação. O arremedo, segundo Donald, é visto em muitos animais; a imitação, em macacos e grandes primatas não humanos; a mimese, apenas no ser humano.*
A imitação, que tem um papel fundamental nas artes cênicas, onde a prática, a repetição e o ensaio incessantes são imprescindíveis, também é importante na pintura e na composição musical e escrita. Todos os artistas jovens buscam modelos durante os anos de aprendizado. Nesse sentido, toda arte começa como “derivada”: é fortemente influenciada pelos modelos admirados e emulados, ou até diretamente imitados ou parafraseados.
Mas por que, de cada cem jovens músicos talentosos ou de cada cem jovens cientistas brilhantes, apenas um punhado irá produzir composições musicais memoráveis ou fazer descobertas científicas fundamentais? Será que a maioria desses jovens, apesar de seus dons, carece de alguma centelha criativa adicional? Será que lhes faltam características que talvez sejam essenciais para a realização criativa, por exemplo, audácia, confiança, pensamento independente?
A criatividade envolve não só anos de preparação e treinamento conscientes, mas também de preparação inconsciente. Esse período de incubação é essencial para permitir que o subconsciente assimile e incorpore influências, que as reorganize em algo pessoal. Na abertura de Rienzi*, de Wagner, quase podemos identificar todo esse processo. Há ecos, imitações, paráfrases de Rossini, Schumann e outros* − as influências musicais de seu aprendizado. E então, de súbito, ouvimos a voz de Wagner: potente, extraordinária (ainda que horrível, na minha opinião), uma voz genial, sem precedentes.
Todos nós, em algum grau, fazemos empréstimos de terceiros, da cultura à nossa volta. As ideias estão no ar, e nos apropriamos, muitas vezes sem perceber, de frases e da linguagem da época. A própria língua é emprestada: não a inventamos. Nós a descobrimos, ainda que possamos usá-la e interpretá-la de modos muito individuais. O que está em questão não é “emprestar” ou “imitar”, ser “derivado”, ser “influenciado”, e sim o que se faz com aquilo que é tomado de empréstimo.
As vírgulas indicam a elipse de um verbo em:
- Ae nos apropriamos, muitas vezes sem perceber, de frases e da linguagem da época.
- BTodos nós, em algum grau, fazemos empréstimos de terceiros...
- CO arremedo [...] é visto em muitos animais; a imitação, em macacos e grandes primatas não humanos; a mimese, apenas no ser humano. (alternativa correta)
- DNa abertura de Rienzi, de Wagner, quase podemos identificar todo esse processo.
- EO termo “arremedo” pode implicar algum grau de intenção, mas imitar, ecoar ou reproduzir são propensões [...] universais.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A vírgula pode ser usada para indicar a elipse (omissão) de um verbo que já foi mencionado ou está subentendido na frase, evitando repetição desnecessária e tornando a leitura mais fluida.
(A) Incorreta: As vírgulas isolam uma expressão adverbial de modo ("muitas vezes sem perceber") que está intercalada na oração, não indicam a omissão de um verbo.
(B) Incorreta: As vírgulas isolam uma expressão adverbial de intensidade/modo ("em algum grau") que está intercalada na oração, não indicam a omissão de um verbo.
(C) Correta: Nesta frase, a vírgula após "a imitação" e após "a mimese" indica a elipse do verbo "é vista" (ou "é visto", concordando com o sujeito anterior "o arremedo"). A frase completa seria: "O arremedo é visto em muitos animais; a imitação é vista em macacos e grandes primatas não humanos; a mimese é vista apenas no ser humano."
(D) Incorreta: As vírgulas separam adjuntos adnominais ("de Rienzi", "de Wagner") que especificam o substantivo "abertura", não indicam a omissão de um verbo.
(E) Incorreta: A vírgula antes de "mas" separa orações coordenadas adversativas. As vírgulas entre "imitar, ecoar ou reproduzir" separam elementos de uma enumeração, não indicam a omissão de um verbo. A armadilha aqui é a presença de múltiplas vírgulas, mas nenhuma delas cumpre a função de elipse verbal.
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.