Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 4)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às perguntas de números 1 a 9.
As crianças gostam de brincadeiras que sejam imitativas e repetitivas, mas, ao mesmo tempo, inovadoras. Firmam-se no que lhes é conhecido e seguro, e exploram o que é novo e nunca foi experimentado.
O termo “arremedo” pode implicar algum grau de intenção, mas imitar, ecoar ou reproduzir são propensões psicológicas (e até fisiológicas) universais que vemos em todo ser humano e em muitos animais.
Merlin Donald, em Origens do pensamento moderno*, faz uma distinção entre arremedo, imitação e mimese: o arremedo é literal, uma tentativa de produzir uma duplicata o mais exata possível. A imitação não é tão literal quanto o arremedo. A mimese adiciona uma dimensão representativa à imitação. Em geral, incorpora o arremedo e a imitação a um fim superior, o de reencenar e representar um evento ou relação. O arremedo, segundo Donald, é visto em muitos animais; a imitação, em macacos e grandes primatas não humanos; a mimese, apenas no ser humano.*
A imitação, que tem um papel fundamental nas artes cênicas, onde a prática, a repetição e o ensaio incessantes são imprescindíveis, também é importante na pintura e na composição musical e escrita. Todos os artistas jovens buscam modelos durante os anos de aprendizado. Nesse sentido, toda arte começa como “derivada”: é fortemente influenciada pelos modelos admirados e emulados, ou até diretamente imitados ou parafraseados.
Mas por que, de cada cem jovens músicos talentosos ou de cada cem jovens cientistas brilhantes, apenas um punhado irá produzir composições musicais memoráveis ou fazer descobertas científicas fundamentais? Será que a maioria desses jovens, apesar de seus dons, carece de alguma centelha criativa adicional? Será que lhes faltam características que talvez sejam essenciais para a realização criativa, por exemplo, audácia, confiança, pensamento independente?
A criatividade envolve não só anos de preparação e treinamento conscientes, mas também de preparação inconsciente. Esse período de incubação é essencial para permitir que o subconsciente assimile e incorpore influências, que as reorganize em algo pessoal. Na abertura de Rienzi*, de Wagner, quase podemos identificar todo esse processo. Há ecos, imitações, paráfrases de Rossini, Schumann e outros* − as influências musicais de seu aprendizado. E então, de súbito, ouvimos a voz de Wagner: potente, extraordinária (ainda que horrível, na minha opinião), uma voz genial, sem precedentes.
Todos nós, em algum grau, fazemos empréstimos de terceiros, da cultura à nossa volta. As ideias estão no ar, e nos apropriamos, muitas vezes sem perceber, de frases e da linguagem da época. A própria língua é emprestada: não a inventamos. Nós a descobrimos, ainda que possamos usá-la e interpretá-la de modos muito individuais. O que está em questão não é “emprestar” ou “imitar”, ser “derivado”, ser “influenciado”, e sim o que se faz com aquilo que é tomado de empréstimo.
O verbo que, no contexto, pode ser flexionado em uma forma do plural, sem que nenhuma outra modificação seja feita na frase, está em:
- A... apenas um punhado irá produzir composições musicais memoráveis...
- BA mimese adiciona uma dimensão representativa à imitação.
- CA criatividade envolve não só anos de preparação e treinamento conscientes...
- D... a maioria desses jovens, apesar de seus dons, carece de alguma centelha criativa... (alternativa correta)
- EMerlin Donald, em Origens do pensamento moderno, faz uma distinção entre...
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A concordância verbal é a regra gramatical que exige que o verbo se ajuste em número (singular ou plural) e pessoa (1ª, 2ª ou 3ª) ao seu sujeito. Em alguns casos especiais, especialmente com sujeitos que indicam coletividade ou quantidade, o verbo pode concordar de duas formas diferentes sem que a frase se torne incorreta.
- A) Incorreta: A frase "apenas um punhado irá produzir..." tem como sujeito "um punhado". Embora "punhado" seja um substantivo coletivo que se refere a "jovens músicos/cientistas" (plural, inferido do contexto anterior), o complemento plural ("de jovens") não está explicitamente presente e adjacente ao coletivo na mesma oração. Em interpretações gramaticais mais rigorosas, a concordância facultativa com o plural ("irão") seria menos direta ou exigiria a explicitação do complemento, o que configuraria outra modificação.
- B) Incorreta: O sujeito é "A mimese" (singular). Para que o verbo "adiciona" fosse para o plural ("adicionam"), o sujeito também precisaria ser pluralizado ("As mimeses"), o que seria uma modificação adicional na frase.
- C) Incorreta: O sujeito é "A criatividade" (singular). Para que o verbo "envolve" fosse para o plural ("envolvem"), o sujeito também precisaria ser pluralizado ("As criatividades"), o que seria uma modificação adicional na frase.
- (D) Correta: A frase "... a maioria desses jovens... carece..." apresenta um sujeito formado pela expressão partitiva "a maioria de" seguida de um substantivo no plural ("jovens"). Nesses casos, a concordância verbal facultativa permite que o verbo concorde tanto com o núcleo da expressão partitiva (singular, "maioria") quanto com o substantivo plural que a especifica ("jovens"). Assim, "carece" (singular) e "carecem" (plural) são ambas formas gramaticalmente corretas, sem a necessidade de nenhuma outra modificação na frase.
- E) Incorreta: O sujeito é "Merlin Donald" (singular, nome próprio). Para que o verbo "faz" fosse para o plural ("fazem"), o sujeito precisaria ser pluralizado ou haver múltiplos sujeitos, o que alteraria fundamentalmente o sentido e a estrutura da frase.
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.