Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 13)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 11 a 15.
Uma amiga me disse que em alguns cursos da Universidade de Princeton o celular e o tablet foram proibidos porque os estudantes filmavam e fotografavam as aulas, ou simplesmente brincavam com joguinhos eletrônicos. A proibição do uso de aparelhos eletrônicos em sala de aula numa das maiores universidades dos Estados Unidos não é desprezível. O celular na palma da mão desconcentra o estudante e abole uma prática antiga: a caligrafia.
Dos milenares hieróglifos egípcios gravados em pedra e palavras escritas em pergaminho à mais recente prescrição médica, a caligrafia tem uma longa história. Mas essa história − que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão − parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela.
Lembro uma entrevista com Roland Barthes, em que o crítico francês dizia que as correções das provas tipográficas dos romances de Balzac pareciam fogos de artifícios. É uma bela imagem do efeito estético da caligrafia no papel impresso. Quando pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos, fiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes, e admirado com a obsessão de Balzac em acrescentar, cortar e substituir palavras e frases, e alterar a pontuação. O autor de Ilusões Perdidas não poupava esforço para alcançar o que desejava expressar, e esse empenho tão grande acabou por exauri-lo quando escrevia seu último romance.
Mas há beleza também na caligrafia torta e hesitante de uma criança, numa carta de amor escrita a lápis, na mensagem pintada à mão no para-choque de um caminhão, no muro grafitado da cidade poluída.
Num de seus poemas memoráveis, “O Sobrevivente”, Carlos Drummond de Andrade escreveu à mão e depois datilografou: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. / Se você quer fumar um charuto aperte um botão”.
Na mão que move a escrita há um gesto corporal atávico, um desejo da nossa ancestralidade, que a maquininha subtrai, ou até mesmo anula. Ainda escrevo alguns textos à mão, antes de digitá-los no computador. No trabalho diário de um jornalista, isso é quase impossível, mas na escrita de uma crônica, pego a caneta e o papel e exercito minha pobre caligrafia.
Talvez eu seja o antepenúltimo dinossauro. Mal escrevo essa palavra, vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado. É um pássaro que desconheço; pousou num galho do manacá florido, e seu canto misterioso me remete ao livro A Linguagem dos Pássaros , escrito no século 12 pelo poeta persa Farid Ud-din Attar. Nele, a caligrafia é sinônimo de “beleza da escrita, linguagem da mão e nobreza do sentimento”.
Constituem uma causa e seu efeito, nessa ordem, os segmentos:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 11, questão nº 12, questão nº 14, questão nº 15.
- Afiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes // pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos.
- BMal escrevo essa palavra // vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado.
- CÉ um pássaro que desconheço // pousou num galho do manacá florido.
- DNo trabalho diário de um jornalista // isso é quase impossível.
- Eos estudantes filmavam e fotografavam as aulas // em alguns cursos da Universidade de Princeton o celular e o tablet foram proibidos. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A relação de causa e efeito ocorre quando um evento ou ação (a causa) provoca ou gera outro evento ou ação (o efeito). A causa é o motivo pelo qual algo acontece, e o efeito é a consequência desse motivo.
(A) Incorreta: A frase "pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos" é a causa para o autor ter ficado impressionado. A alternativa apresenta o efeito ("fiquei impressionado...") antes da causa, invertendo a ordem solicitada.
(B) Incorreta: "Mal escrevo essa palavra" indica uma ação que ocorre simultaneamente ou imediatamente antes de "vejo um dos minúsculos seres...", mas não que uma seja a causa da outra. É uma sequência temporal ou uma transição de pensamento, não uma relação causal.
(C) Incorreta: "É um pássaro que desconheço" é uma característica ou observação sobre o pássaro, e "pousou num galho do manacá florido" é uma ação. Não há relação de causa e efeito entre o fato de ser desconhecido e o ato de pousar.
(D) Incorreta: "No trabalho diário de um jornalista" descreve o contexto ou a circunstância em que algo é difícil. A dificuldade ("isso é quase impossível") não é causada diretamente pelo "trabalho diário" em si, mas pelas exigências e ritmo desse trabalho, que não são explicitadas como causa no segmento.
(E) Correta: O fato de "os estudantes filmavam e fotografavam as aulas" (e brincavam com joguinhos) é a causa direta para a decisão de que "o celular e o tablet foram proibidos" nos cursos da universidade, que é o efeito. A alternativa apresenta a causa e o efeito na ordem correta.
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.