Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 7)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às perguntas de números 1 a 9.
As crianças gostam de brincadeiras que sejam imitativas e repetitivas, mas, ao mesmo tempo, inovadoras. Firmam-se no que lhes é conhecido e seguro, e exploram o que é novo e nunca foi experimentado.
O termo “arremedo” pode implicar algum grau de intenção, mas imitar, ecoar ou reproduzir são propensões psicológicas (e até fisiológicas) universais que vemos em todo ser humano e em muitos animais.
Merlin Donald, em Origens do pensamento moderno*, faz uma distinção entre arremedo, imitação e mimese: o arremedo é literal, uma tentativa de produzir uma duplicata o mais exata possível. A imitação não é tão literal quanto o arremedo. A mimese adiciona uma dimensão representativa à imitação. Em geral, incorpora o arremedo e a imitação a um fim superior, o de reencenar e representar um evento ou relação. O arremedo, segundo Donald, é visto em muitos animais; a imitação, em macacos e grandes primatas não humanos; a mimese, apenas no ser humano.*
A imitação, que tem um papel fundamental nas artes cênicas, onde a prática, a repetição e o ensaio incessantes são imprescindíveis, também é importante na pintura e na composição musical e escrita. Todos os artistas jovens buscam modelos durante os anos de aprendizado. Nesse sentido, toda arte começa como “derivada”: é fortemente influenciada pelos modelos admirados e emulados, ou até diretamente imitados ou parafraseados.
Mas por que, de cada cem jovens músicos talentosos ou de cada cem jovens cientistas brilhantes, apenas um punhado irá produzir composições musicais memoráveis ou fazer descobertas científicas fundamentais? Será que a maioria desses jovens, apesar de seus dons, carece de alguma centelha criativa adicional? Será que lhes faltam características que talvez sejam essenciais para a realização criativa, por exemplo, audácia, confiança, pensamento independente?
A criatividade envolve não só anos de preparação e treinamento conscientes, mas também de preparação inconsciente. Esse período de incubação é essencial para permitir que o subconsciente assimile e incorpore influências, que as reorganize em algo pessoal. Na abertura de Rienzi*, de Wagner, quase podemos identificar todo esse processo. Há ecos, imitações, paráfrases de Rossini, Schumann e outros* − as influências musicais de seu aprendizado. E então, de súbito, ouvimos a voz de Wagner: potente, extraordinária (ainda que horrível, na minha opinião), uma voz genial, sem precedentes.
Todos nós, em algum grau, fazemos empréstimos de terceiros, da cultura à nossa volta. As ideias estão no ar, e nos apropriamos, muitas vezes sem perceber, de frases e da linguagem da época. A própria língua é emprestada: não a inventamos. Nós a descobrimos, ainda que possamos usá-la e interpretá-la de modos muito individuais. O que está em questão não é “emprestar” ou “imitar”, ser “derivado”, ser “influenciado”, e sim o que se faz com aquilo que é tomado de empréstimo.
A imitação, que tem papel fundamental nas artes cênicas, onde a prática, a repetição e o ensaio incessantes são imprescindíveis... (4º parágrafo)
Sem prejuízo para a correção e o sentido, o segmento sublinhado acima pode ser substituído por:
- Ao qual é papel fundamental
- Bcujo papel é fundamental (alternativa correta)
- Conde há um papel fundamental
- Dà qual possui um papel fundamental
- Epelo qual se constitui papel fundamental
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Os pronomes relativos conectam duas orações, substituindo um termo da primeira oração na segunda, evitando repetição e estabelecendo uma relação. O pronome cujo (e suas variações: cuja, cujos, cujas) é um pronome relativo de posse, significando "do qual", "da qual", "de quem". Ele sempre concorda em gênero e número com o substantivo que o segue (o "possuído"), e não com o antecedente (o "possuidor").
Análise da frase original: "A imitação, que tem papel fundamental nas artes cênicas..."
Aqui, "que" retoma "A imitação" e é o sujeito do verbo "tem". A frase significa "A imitação, e ela tem papel fundamental..." ou "A imitação, o papel dela é fundamental...".
(A) Incorreta: "o qual é papel fundamental" muda o sentido. "O qual" retoma "A imitação". A frase passaria a significar "A imitação, a qual é um papel fundamental", o que está incorreto, pois a imitação tem um papel, ela não é o papel em si. Além disso, a concordância verbal e a regência seriam diferentes.
(B) Correta: "cujo papel é fundamental" mantém o sentido e a correção gramatical. "Cujo" estabelece a relação de posse entre "imitação" (o possuidor) e "papel" (o possuído). Significa "A imitação, o papel da qual é fundamental". O pronome "cujo" concorda com "papel" (masculino singular).
(C) Incorreta: "onde há um papel fundamental" altera o sentido. "Onde" é um pronome relativo de lugar. A frase original não se refere a um lugar, mas sim à própria "imitação" como agente que "tem" um papel.
(D) Incorreta: "à qual possui um papel fundamental" está gramaticalmente incorreta. O verbo "possuir" é transitivo direto (quem possui, possui algo), não exigindo a preposição "a". Se fosse para usar "a qual", seria "a qual possui um papel fundamental", sem o acento grave. O "à" indica que o antecedente seria um objeto indireto ou complemento nominal regido por "a", o que não é o caso aqui.
(E) Incorreta: "pelo qual se constitui papel fundamental" altera o sentido. "Pelo qual" indica meio ou causa. A frase passaria a significar "A imitação, por meio da qual um papel fundamental se constitui", o que é diferente de a imitação ter um papel fundamental.
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.