Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 1)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às perguntas de números 1 a 9.
As crianças gostam de brincadeiras que sejam imitativas e repetitivas, mas, ao mesmo tempo, inovadoras. Firmam-se no que lhes é conhecido e seguro, e exploram o que é novo e nunca foi experimentado.
O termo “arremedo” pode implicar algum grau de intenção, mas imitar, ecoar ou reproduzir são propensões psicológicas (e até fisiológicas) universais que vemos em todo ser humano e em muitos animais.
Merlin Donald, em Origens do pensamento moderno*, faz uma distinção entre arremedo, imitação e mimese: o arremedo é literal, uma tentativa de produzir uma duplicata o mais exata possível. A imitação não é tão literal quanto o arremedo. A mimese adiciona uma dimensão representativa à imitação. Em geral, incorpora o arremedo e a imitação a um fim superior, o de reencenar e representar um evento ou relação. O arremedo, segundo Donald, é visto em muitos animais; a imitação, em macacos e grandes primatas não humanos; a mimese, apenas no ser humano.*
A imitação, que tem um papel fundamental nas artes cênicas, onde a prática, a repetição e o ensaio incessantes são imprescindíveis, também é importante na pintura e na composição musical e escrita. Todos os artistas jovens buscam modelos durante os anos de aprendizado. Nesse sentido, toda arte começa como “derivada”: é fortemente influenciada pelos modelos admirados e emulados, ou até diretamente imitados ou parafraseados.
Mas por que, de cada cem jovens músicos talentosos ou de cada cem jovens cientistas brilhantes, apenas um punhado irá produzir composições musicais memoráveis ou fazer descobertas científicas fundamentais? Será que a maioria desses jovens, apesar de seus dons, carece de alguma centelha criativa adicional? Será que lhes faltam características que talvez sejam essenciais para a realização criativa, por exemplo, audácia, confiança, pensamento independente?
A criatividade envolve não só anos de preparação e treinamento conscientes, mas também de preparação inconsciente. Esse período de incubação é essencial para permitir que o subconsciente assimile e incorpore influências, que as reorganize em algo pessoal. Na abertura de Rienzi*, de Wagner, quase podemos identificar todo esse processo. Há ecos, imitações, paráfrases de Rossini, Schumann e outros* − as influências musicais de seu aprendizado. E então, de súbito, ouvimos a voz de Wagner: potente, extraordinária (ainda que horrível, na minha opinião), uma voz genial, sem precedentes.
Todos nós, em algum grau, fazemos empréstimos de terceiros, da cultura à nossa volta. As ideias estão no ar, e nos apropriamos, muitas vezes sem perceber, de frases e da linguagem da época. A própria língua é emprestada: não a inventamos. Nós a descobrimos, ainda que possamos usá-la e interpretá-la de modos muito individuais. O que está em questão não é “emprestar” ou “imitar”, ser “derivado”, ser “influenciado”, e sim o que se faz com aquilo que é tomado de empréstimo.
Considere as afirmações abaixo.
I. A mimese, prática observada apenas em seres humanos, consiste na recriação de uma determinada situação a partir do arremedo ou da imitação, com a finalidade de reinterpretá-la, conferindo-lhe novo significado.
II. Pode-se observar, a partir das brincadeiras infantis, que as crianças são atraídas tanto pelo familiar e conhecido como pelo inovador e inusitado.
III. A imitação e o arremedo, práticas importantes para certas áreas, como o teatro, são condenáveis quando se trata de uma composição literária, já que, conforme se infere da opinião do autor, podem, nesse caso, constituir plágio.
Está correto o que se afirma APENAS em
- AI e II. (alternativa correta)
- BII e III.
- CII.
- DI e III.
- EI.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O texto explora as diferentes formas de imitação (arremedo, imitação e mimese) e como elas são fundamentais tanto para o aprendizado quanto para o processo criativo, que envolve transformar influências em algo original.
(A) Correta: A afirmação I está correta porque o texto (parágrafo 3) define mimese como uma prática exclusiva dos seres humanos que incorpora o arremedo e a imitação para reencenar e representar eventos, adicionando uma dimensão representativa e um "fim superior", o que implica reinterpretação. A afirmação II também está correta, pois o primeiro parágrafo descreve as crianças como atraídas por brincadeiras "imitativas e repetitivas" (familiar e conhecido) e "inovadoras" (novo e inusitado), firmando-se no conhecido e explorando o novo.
(B) Incorreta: A afirmação III está incorreta. Embora a imitação seja importante no teatro, o texto não a condena na composição literária; pelo contrário, afirma que é importante na "composição musical e escrita" (parágrafo 4) e que o problema não é "emprestar" ou "imitar", mas "o que se faz com aquilo que é tomado de empréstimo" (parágrafo 7), não havendo inferência de plágio. A armadilha da banca aqui é tentar associar "imitação" e "derivado" a "plágio", ignorando a nuance do texto que valoriza a transformação do que é emprestado.
(C) Incorreta: A afirmação I também está correta, não apenas a II.
(D) Incorreta: A afirmação III está incorreta.
(E) Incorreta: A afirmação II também está correta, não apenas a I.
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.