Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2017 (nº 12)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 11 a 15.
Uma amiga me disse que em alguns cursos da Universidade de Princeton o celular e o tablet foram proibidos porque os estudantes filmavam e fotografavam as aulas, ou simplesmente brincavam com joguinhos eletrônicos. A proibição do uso de aparelhos eletrônicos em sala de aula numa das maiores universidades dos Estados Unidos não é desprezível. O celular na palma da mão desconcentra o estudante e abole uma prática antiga: a caligrafia.
Dos milenares hieróglifos egípcios gravados em pedra e palavras escritas em pergaminho à mais recente prescrição médica, a caligrafia tem uma longa história. Mas essa história − que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão − parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela.
Lembro uma entrevista com Roland Barthes, em que o crítico francês dizia que as correções das provas tipográficas dos romances de Balzac pareciam fogos de artifícios. É uma bela imagem do efeito estético da caligrafia no papel impresso. Quando pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos, fiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes, e admirado com a obsessão de Balzac em acrescentar, cortar e substituir palavras e frases, e alterar a pontuação. O autor de Ilusões Perdidas não poupava esforço para alcançar o que desejava expressar, e esse empenho tão grande acabou por exauri-lo quando escrevia seu último romance.
Mas há beleza também na caligrafia torta e hesitante de uma criança, numa carta de amor escrita a lápis, na mensagem pintada à mão no para-choque de um caminhão, no muro grafitado da cidade poluída.
Num de seus poemas memoráveis, “O Sobrevivente”, Carlos Drummond de Andrade escreveu à mão e depois datilografou: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. / Se você quer fumar um charuto aperte um botão”.
Na mão que move a escrita há um gesto corporal atávico, um desejo da nossa ancestralidade, que a maquininha subtrai, ou até mesmo anula. Ainda escrevo alguns textos à mão, antes de digitá-los no computador. No trabalho diário de um jornalista, isso é quase impossível, mas na escrita de uma crônica, pego a caneta e o papel e exercito minha pobre caligrafia.
Talvez eu seja o antepenúltimo dinossauro. Mal escrevo essa palavra, vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado. É um pássaro que desconheço; pousou num galho do manacá florido, e seu canto misterioso me remete ao livro A Linguagem dos Pássaros , escrito no século 12 pelo poeta persa Farid Ud-din Attar. Nele, a caligrafia é sinônimo de “beleza da escrita, linguagem da mão e nobreza do sentimento”.
Considerando-se o contexto, o segmento sublinhado pode ser substituído pelo que se encontra entre parênteses em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 11, questão nº 13, questão nº 14, questão nº 15.
- Aparece fenecer (extinguir-se) com o advento do minúsculo teclado e sua tela. (2º parágrafo) (alternativa correta)
- Bfiquei impressionado com a metáfora precisa (intransigente) de Barthes. (3º parágrafo)
- CNa mão que move a escrita há um gesto corporal atávico (latente) (6º parágrafo)
- Dque a maquininha subtrai (submete) (6º parágrafo)
- Ee seu canto misterioso me remete (sujeita) ao livro A Linguagem dos Pássaros (último parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Equivalência de sentido é encontrar uma palavra ou expressão que mantém o mesmo significado da original dentro do contexto da frase, sem alterar a ideia principal.
(A) Correta: "Fenecer" significa murchar, definhar, desaparecer ou extinguir-se. No contexto, a prática da caligrafia parece estar desaparecendo com o uso de teclados, portanto, "extinguir-se" é um sinônimo perfeito.
(B) Incorreta: "Precisa" no contexto significa exata, rigorosa, que se encaixa perfeitamente. "Intransigente" significa inflexível, que não cede, o que não faz sentido para descrever uma metáfora. A armadilha da banca aqui é que "precisa" pode ter o sentido de "necessária", mas no contexto da metáfora, refere-se à sua exatidão, não à sua necessidade ou inflexibilidade.
(C) Incorreta: "Atávico" refere-se a algo ancestral, primitivo, que remonta aos antepassados. "Latente" significa oculto, adormecido, que não se manifesta. Embora um gesto atávico possa estar latente, "latente" não expressa a ideia de ancestralidade que "atávico" carrega.
(D) Incorreta: "Subtrai" significa tirar, diminuir, remover. "Submete" significa sujeitar, dominar, subordinar. A maquininha tira ou diminui o gesto, não o domina ou sujeita.
(E) Incorreta: "Remete" significa fazer lembrar, levar a pensar em, referir-se a. "Sujeita" significa submeter, obrigar, dominar. O canto do pássaro faz lembrar o livro, não o submete ao livro.
Fonte: FCC DPE-AM 2017 Conhecimentos Comuns (Nível Superior B - DPEAM 2017) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.