Questão nº 43
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 43)
Estabelecida na Sicília no século V a.C., a retórica terá como primeiros cultores a Empédocles, Córax e Tísias. Segundo Armando Plebe (1968, p. 3-6, passim*), já nesse momento nebuloso de suas origens, a disciplina conheceria duas linhagens: primeira, uma demonstração técnica e racional do verossímil; segunda, uma psicagogia (literalmente, “condução da alma”), isto é, exploração do potencial de sedução da palavra, aquém ou além de sua inteligibilidade. A primeira linhagem aspira a tornar mais potente o discurso válido de uma perspectiva lógica, tendo como fonte Córax, Tísias e Protágoras; a segunda, mergulhada em princípios pitagóricos − magia, medicina e música como terapias − e parmenídicos − distinção entre a via da verdade e a da opinião − pretende trabalhar o fascínio enganador a que se presta a palavra, originando-se no pensamento de Empédocles, para daí passar a Górgias e depois a Isócrates.*
A partir de fins do século V a. C., a retórica entra num período que ficou melhor documentado, podendo-se dizer, contudo, que a controvérsia já referida, entre a arte da palavra como embalagem do raciocínio ou como encantamento e ilusionismo, se transforma em verdadeiro mote do debate filosófico que atravessaria os séculos. Desse período, são de destacar as obras de Platão − que em geral reagiu contra a retórica enquanto hipertrofia da linguagem como forma sedutora, ou então a avaliou positivamente, desde que identificada com a dialética − e de Aristóteles − que lhe dedicou um tratado específico destinado a ampla influência, concebendo-a como técnica rigorosa de argumentação e como arte do estilo, além de estudá-la sob os pontos de vista do ethos do orador e do pathos dos ouvintes.
Em linhas gerais, os sofistas foram mestres da retórica e da oratória, que ensinavam na pólis aos cidadãos interessados em dominar as técnicas do discurso. No entanto, eram constantemente acusados por Platão e por Aristóteles, por exemplo, de empregar sofismas, silogismos falsos, para impressionar os seus ouvintes. Referência semelhante sobre a sofística e sobre os sofistas está presente em:
- A[...] pretende trabalhar o fascínio enganador a que se presta a palavra, originando-se no pensamento de Empédocles, para daí passar a Górgias e depois a Isócrates. (1º parágrafo) (alternativa correta)
- B[...] já nesse momento nebuloso de suas origens, a disciplina conheceria duas linhagens [...]. (1º parágrafo)
- CA partir de fins do século V a. C., a retórica entra num período que ficou melhor documentado [...]. (2º parágrafo)
- D[...] uma demonstração técnica e racional do verossímil. (1º parágrafo)
- EDesse período são de destacar as obras de Platão [...]. (2º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: Sofisma é um raciocínio falso que parece verdadeiro, usado para enganar ou impressionar. A crítica de Platão e Aristóteles aos sofistas era exatamente essa: eles usavam a palavra para seduzir e manipular, não para buscar a verdade. A alternativa correta é a que descreve essa função enganadora da retórica, ligada à linhagem de Empédocles, Górgias e Isócrates.
- (A) Correta: É o gabarito porque descreve a linhagem da retórica como “fascínio enganador” e “condução da alma” (psicagogia), exatamente o que Platão e Aristóteles criticavam nos sofistas: usar a palavra para iludir, não para demonstrar racionalmente.
- (B) Incorreta: Apenas menciona que a retórica tinha duas linhagens na origem, sem relacionar isso diretamente à crítica dos sofistas por usarem sofismas.
- (C) Incorreta: Fala da documentação histórica do período, sem tocar na acusação de falsos silogismos ou no engano pela palavra.
- (D) Incorreta: Descreve a linhagem “nobre” da retórica (demonstração técnica e racional do verossímil), que é o oposto do que os críticos atribuíam aos sofistas — aqui não há engano, há lógica.
- (E) Incorreta: Só cita que Platão se destacou no período, sem explicar o conteúdo da crítica dele (a hipertrofia da linguagem sedutora). É o distrator mais tentador, pois menciona Platão, mas não diz o que ele criticava — a banca quer ver se você liga a crítica ao fascínio enganador (A) e não apenas ao nome do filósofo.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Redator (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.