Questão nº 41
Questão de Medicina · FGV TJ-SE Servidor 2023 (nº 41)
Paciente de 64 anos vinha em tratamento de primeira linha para câncer gastrointestinal, tendo realizado o último ciclo de quimioterapia três dias antes de sua admissão na emergência, onde chega queixando-se de diarreia profusa com cerca de cinco episódios diários, associados a mal-estar generalizado, dor abdominal, náuseas e vômitos. Ao exame: desidratada++/4+, eupneica, lúcida. PA 110 X 60mmHg, FC 88 bpm, SatO2 98%. À palpação: abdome distendido e difusamente doloroso, sem sinais de irritação peritoneal.
Quanto ao caso em questão, é correto afirmar que:
- Ahá alto risco de neutropenia febril, portanto, a paciente deve ser internada prontamente e filgrastim deve ser iniciado de forma precoce, não sendo necessário aguardar resultado do hemograma;
- Bhemoculturas deverão ser prontamente coletadas, seguidas de início de antibiótico na primeira hora, já que se trata de quadro séptico em paciente imunossuprimido;
- Ctoxicidade gastrointestinal à quimioterapia seria a principal hipótese, e a paciente deve ser abordada inicialmente com reposição volêmica e sintomáticos; (alternativa correta)
- Dcolite pseudomembranosa seria a principal hipótese, e a paciente poderia ser tratada com vancomicina oral ambulatorialmente;
- Eos efeitos colaterais apresentados pela paciente sugerem reação grave à quimioterapia, justificando a troca do agente quimioterápico no próximo ciclo de tratamento.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é reconhecer que efeitos colaterais gastrointestinais como diarreia, náuseas e vômitos são muito comuns e esperados após a quimioterapia, especialmente nos primeiros dias. A abordagem inicial foca em suporte e controle dos sintomas.
- (A) Incorreta: A paciente não apresenta febre, que é um critério essencial para o diagnóstico de neutropenia febril. Embora o risco exista, não se inicia filgrastim ou se assume neutropenia febril sem a presença de febre e/ou confirmação laboratorial (hemograma). A armadilha é o alto risco de neutropenia febril em pacientes oncológicos pós-quimioterapia, mas a ausência de febre no quadro clínico impede essa conclusão imediata.
- (B) Incorreta: Apesar de ser uma paciente imunossuprimida, não há sinais claros de sepse (como febre, hipotensão grave, taquicardia desproporcional, alteração do nível de consciência) que justifiquem a coleta imediata de hemoculturas e o início de antibióticos na primeira hora como principal conduta. A desidratação e os sintomas gastrointestinais são mais bem explicados pela toxicidade da quimioterapia.
- (C) Correta: A toxicidade gastrointestinal (mucosites, diarreia, náuseas, vômitos) é uma complicação muito comum da quimioterapia, e o quadro clínico da paciente (início 3 dias após o ciclo, diarreia profusa, náuseas, vômitos, dor abdominal) é altamente compatível. A desidratação é uma consequência direta desses sintomas. A reposição volêmica e o tratamento sintomático (antieméticos, antidiarreicos) são as medidas iniciais e mais importantes.
- (D) Incorreta: Embora a colite pseudomembranosa (por Clostridioides difficile) seja uma causa de diarreia em pacientes imunossuprimidos, a principal hipótese, dada a quimioterapia recente, é a toxicidade direta. Além disso, uma paciente desidratada com diarreia profusa e dor abdominal não deve ser tratada ambulatorialmente; ela necessita de internação para hidratação e monitoramento.
- (E) Incorreta: A decisão de trocar o agente quimioterápico é uma medida de longo prazo, tomada pelo oncologista após avaliação da gravidade e refratariedade da toxicidade. No momento da emergência, a prioridade é o manejo agudo dos sintomas e a estabilização da paciente, não a alteração do esquema terapêutico.
Fonte: FGV TJ-SE Servidor 2023 Analista Judiciário - Medicina - Clínico Geral (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.