Questão nº 75
Questão de Pedagogia · FGV TJ-AP 2024 (nº 75)
Leia as frases a seguir.
- "João é muito culto, conhece várias línguas, entende de arte e de literatura."
- "Imagine! É claro que Joaquim não pode ocupar o cargo que pleiteia. Ele não tem cultura nenhuma. É semianalfabeto."
- "Não creio que a cultura alemã ou francesa seja superior à brasileira. Você acha que há alguma coisa superior à nossa música popular?"
Essas frases, que constam da obra Iniciação à Filosofia, de Marilena Chauí, e muitas outras que fazem parte do nosso dia a dia, indicam que empregamos a palavra cultura, e seus derivados, como culto e inculto, em sentidos muito diferentes e, por vezes, contraditórios.
A partir das frases citadas, é correto afirmar que:
- Ana segunda frase, a cultura é vista como prestígio de poucos, sem descartar a possibilidade de muitos virem a tê-la;
- Bna terceira frase, a cultura se mostra não só como uma propriedade do indivíduo, mas também como qualidade de uma coletividade sem, portanto, agregar valor à sua nação;
- Cnas três frases, a cultura surge como algo que pode ser entendido como superior e inferior, e ainda apresenta contradição, uma vez que a música popular brasileira é aclamada como cultura superior quando o popular é visto como inculto; (alternativa correta)
- Dna primeira frase, a cultura é identificada como a posse de conhecimentos que são adquiridos pelas experiências vividas e narradas pelo indivíduo, que são apartadas da coletividade e do vínculo acadêmico sem ter a pretensão de designar-se superior ou inferior;
- Enas três frases, as palavras "culto" e "inculto" não surgem como diferenças sociais, mas como aspectos relacionados às capacidades cognitivas do ser humano.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é que a palavra cultura não tem um único significado, sendo usada de diversas formas em nosso dia a dia, muitas vezes de maneira contraditória, para se referir a conhecimentos eruditos, habilidades sociais, identidade de um povo ou até mesmo para classificar pessoas e grupos como superiores ou inferiores.
(A) Incorreta: A segunda frase ("Joaquim não pode ocupar o cargo... Ele não tem cultura nenhuma. É semianalfabeto") de fato mostra a cultura como um prestígio (ou a falta dela como uma desvantagem social e profissional). No entanto, a frase não aborda a "possibilidade de muitos virem a tê-la"; ela foca na exclusão de Joaquim devido à sua falta de cultura, que é apresentada como um impedimento imediato e absoluto para o cargo. A armadilha está em adicionar uma inferência que não é o foco principal da frase.
(B) Incorreta: A terceira frase ("Não creio que a cultura alemã ou francesa seja superior à brasileira. Você acha que há alguma coisa superior à nossa música popular?") realmente mostra a cultura como propriedade de uma coletividade (nacional). Contudo, ela agrega valor à nação, ao questionar retoricamente se há algo "superior à nossa música popular", o que é uma forma de exaltação e orgulho nacional. O trecho "sem, portanto, agregar valor à sua nação" torna a alternativa incorreta.
(C) Correta:
- Superior e inferior nas três frases:
- Na primeira ("João é muito culto"), "culto" implica uma superioridade de conhecimento.
- Na segunda ("Ele não tem cultura nenhuma"), a falta de cultura é vista como inferioridade que impede o acesso a um cargo.
- Na terceira, a comparação explícita de culturas ("superior à brasileira", "superior à nossa música popular") demonstra a ideia de superioridade e inferioridade.
- Contradição: A frase destaca a música popular brasileira como algo superior, um ponto de orgulho nacional. No entanto, em outros contextos (como o da primeira frase, que valoriza a erudição), o termo "popular" pode ser associado ao "inculto" ou menos valorizado. Essa dualidade de valorização (popular como inferior vs. popular como superior quando é "nosso" e motivo de orgulho) é a contradição central que a questão e Chauí buscam evidenciar sobre os múltiplos sentidos da cultura.
(D) Incorreta: Na primeira frase, a cultura é sim a posse de conhecimentos ("conhece várias línguas, entende de arte e de literatura"). No entanto, afirmar que são "apartadas da coletividade e do vínculo acadêmico" é questionável, pois línguas, arte e literatura são frequentemente aprendidas em contextos coletivos e acadêmicos. O erro mais evidente é dizer que não tem a "pretensão de designar-se superior ou inferior"; ser "muito culto" já implica uma valoração e uma posição de superioridade em relação a quem não o é.
(E) Incorreta: As palavras "culto" e "inculto" nas frases surgem sim como diferenças sociais. A primeira frase enaltece João, a segunda exclui Joaquim de um cargo, e a terceira compara identidades nacionais. Todas essas são manifestações de diferenças e hierarquias sociais, e não apenas aspectos cognitivos isolados. A alternativa falha ao negar o caráter social dessas distinções.
Fonte: FGV TJ-AP 2024 Analista Judiciário - Pedagogo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.