Questão nº 61
Questão de Administração Pública · FGV TCE-PA 2024 (nº 61)
João, ordenador de despesas, ao apresentar suas considerações em processo de tomada de conta especial instaurado pelo Tribunal de Contas do Estado Alfa, sustentou que a interpretação de determinado dispositivo constitucional era distinta daquela que estava sendo adotada nos autos. De acordo com João, o significado a ser atribuído pelo intérprete ao dispositivo interpretado é influenciado pelas vicissitudes da realidade.
Os argumentos de João
- Anão se ajustam ao realismo jurídico.
- Bsão compatíveis com o originalismo constitucional.
- Csão compatíveis com a declaração de inconstitucionalidade sem redução de texto. (alternativa correta)
- Dindicam a existência de uma relação de sobreposição entre texto e norma constitucional.
- Eembora se ajustem à mutação constitucional, não se compatibilizam com a interpretação conforme a constituição.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é a interpretação dinâmica da Constituição, que reconhece que o significado das normas constitucionais pode evoluir ao longo do tempo, adaptando-se às mudanças sociais e à realidade, sem que o texto seja formalmente alterado.
- (A) Incorreta: O realismo jurídico defende que o direito não é apenas um conjunto de normas abstratas, mas sim o que os juízes efetivamente decidem, influenciados por fatores sociais, econômicos e políticos. A afirmação de João, de que a interpretação é influenciada pelas "vicissitudes da realidade", é altamente compatível com o realismo jurídico, e não o contrário. A pegadinha está na negação ("não se ajustam").
- (B) Incorreta: O originalismo constitucional defende que a Constituição deve ser interpretada de acordo com a intenção original dos seus criadores ou o significado público do texto na época de sua promulgação. Essa abordagem busca um significado fixo e não é influenciada pelas "vicissitudes da realidade", sendo, portanto, incompatível com os argumentos de João.
- (C) Correta: A declaração de inconstitucionalidade sem redução de texto (ou interpretação conforme a Constituição) é uma técnica em que o tribunal, ao constatar que uma lei possui múltiplas interpretações, declara inconstitucionais apenas as interpretações que violam a Constituição, mantendo o texto da lei válido, mas com um significado adaptado. Essa adaptação do significado (da norma) é frequentemente impulsionada pelas "vicissitudes da realidade" e pela evolução da compreensão constitucional, o que se alinha perfeitamente com os argumentos de João.
- (D) Incorreta: A relação entre texto e norma constitucional é de distinção: o texto é o enunciado linguístico, e a norma é o significado extraído dele. João indica que a norma (significado) é influenciada pela realidade, o que reforça a distinção e a dinamicidade da norma em relação ao texto. No entanto, a expressão "relação de sobreposição" não descreve adequadamente essa dinâmica de interpretação e adaptação que João propõe.
- (E) Incorreta: A mutação constitucional é a mudança informal do significado da Constituição sem alteração do seu texto, justamente em resposta às "vicissitudes da realidade". A interpretação conforme a Constituição é uma técnica interpretativa que pode levar ou ser um reflexo dessa mutação. Portanto, se os argumentos de João se ajustam à mutação constitucional, eles também são compatíveis com a interpretação conforme a Constituição. A afirmação de incompatibilidade torna a alternativa incorreta.
Fonte: FGV TCE-PA 2024 Auditor de Controle Externo - Administrativa - Gestão Governamental (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.