Questão nº 32
Questão de Oncologia Clínica · FGV FHEMIG 2023 (nº 32)
Paciente feminina de 44 anos de idade palpou um nódulo na mama direita de 5cm com um linfonodo móvel na axila ipsilateral. A biópsia da mama diagnosticou um carcinoma ductal invasivo da mama, grau 3, receptores de estrogênio e progesterona negativos, HER-2 3+, ki67 50%.
Considerando o caso descrito, assinale a afirmativa correta.
- AA melhor conduta no caso seria a cirurgia conservadora de mama com esvaziamento axilar, seguido de quimioterapia com duplo bloqueio HER-2 por um ano e radioterapia adjuvante.
- BEm pacientes que fazem tratamento neoadjuvante com quimioterapia e terapia anti-HER-2, caso o tumor residual não expresse HER-2, não existe indicação de administrar T-DM1 adjuvante.
- CO uso de T-DM1 adjuvante em pacientes que não atingiram pCR após neoadjuvância com quimioterapia e terapia anti-HER-2 traz benefícios, com ganho de SLD e SG.
- DNos pacientes que fazem terapia anti-HER-2 combinada de pertuzumabe e trastuzumabe com quimioterapia e não atingem pCR não têm indicação de T-DM1 adjuvante, visto que essas pacientes não participaram do estudo KATHERIN e devem, portanto, manter o bloqueio por um ano.
- EMesmo em pacientes que atingem pCR com neoadjuvância com quimioterapia e terapia anti-HER-2, existe risco de recorrência, que depende essencialmente do estadiamento inicial, podendo ficar entre 15 e 20% em pacientes T3 ou N+. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Em câncer de mama HER2-positivo, a terapia neoadjuvante (antes da cirurgia) é crucial para tumores grandes ou com linfonodos. Obter uma resposta patológica completa (pCR), onde não há tumor residual na mama e axila após o tratamento neoadjuvante, é um excelente indicador de bom prognóstico, mas não elimina totalmente o risco de o câncer voltar, especialmente em casos que já eram mais avançados no início.
- (A) Incorreta: Para um tumor de 5cm HER2-positivo com linfonodo positivo, a conduta inicial padrão é a terapia neoadjuvante (quimioterapia + anti-HER2) para reduzir o tumor e aumentar as chances de cirurgia conservadora e pCR, antes da cirurgia. Iniciar com cirurgia não é a melhor abordagem.
- (B) Incorreta: Embora seja logicamente verdade que T-DM1 não seria indicado se o tumor residual não expressasse HER2 (pois T-DM1 é um anticorpo conjugado que tem como alvo HER2), a premissa para o uso de T-DM1 adjuvante após neoadjuvância é a presença de doença invasiva residual HER2-positiva, conforme demonstrado no estudo KATHERINE. A alternativa foca em um cenário incomum e não na indicação principal. A armadilha é que a afirmação é tecnicamente verdadeira em um vácuo, mas não aborda a indicação clínica real do T-DM1, que é para doença residual HER2-positiva.
- (C) Incorreta: O estudo KATHERINE demonstrou que o T-DM1 adjuvante em pacientes com doença residual invasiva HER2-positiva após neoadjuvância melhora significativamente a Sobrevida Livre de Doença Invasiva (SLDI) e a Sobrevida Livre de Recorrência à Distância (SLRD). A Sobrevida Global (SG) mostrou um benefício numérico e, em análises mais recentes, alcançou significância estatística. No entanto, a afirmação "ganho de SLD e SG" pode ser considerada imprecisa se a referência for a publicações iniciais do KATHERINE onde o benefício em SG ainda não era estatisticamente significativo, ou se houver alguma outra sutileza que a torne menos correta que a alternativa E.
- (D) Incorreta: O estudo KATHERINE incluiu pacientes que receberam bloqueio duplo de HER2 (trastuzumabe e pertuzumabe) na neoadjuvância. A indicação de T-DM1 adjuvante para pacientes com doença residual invasiva HER2-positiva é independente do esquema anti-HER2 neoadjuvante (simples ou duplo bloqueio).
- (E) Correta: Mesmo pacientes que atingem pCR após terapia neoadjuvante para câncer de mama HER2-positivo ainda têm um risco de recorrência, que é influenciado pelo estadiamento inicial. Para pacientes com tumores inicialmente grandes (T3) ou com linfonodos positivos (N+), o risco de recorrência pode ser de 15-20% ou mais, mesmo após pCR, pois o pCR não garante a erradicação de todas as células tumorais microscópicas. Isso reflete a complexidade biológica do câncer e a importância do estadiamento inicial como fator prognóstico independente.
Fonte: FGV FHEMIG 2023 Oncologia Clínica (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.