Questão nº 53
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 53)
Atenção: As questões de números 49 a 55 referem-se ao texto que segue.
Hannah Arendt, preocupada com a situação da arte numa sociedade dominada pela cultura de massas, explica que, embora cultura e arte estejam inter-relacionadas, são coisas diversas. A palavra "cultura", desde sua origem romana, implica criação e preservação da natureza e das obras humanas. As obras de arte são, para ela, a expressão mais alta da cultura, "aqueles objetos que toda a civilização deixa atrás de si como quintessência e o testemunho duradouro do espírito que a animou". A cultura implica "uma atitude de carinhoso cuidado", e uma sociedade de consumo não pode absolutamente saber como cuidar de um mundo e das coisas que pertencem de modo exclusivo ao espaço das aparências mundanas, visto que sua atitude central ante todos os objetos, a atitude de consumo, condena à ruina tudo o que toca.
Diz a pensadora, referindo-se à sociedade de massas do século XX: "A sociedade de massas [...] não precisa de cultura, mas de diversão, e os produtos oferecidos pela indústria de diversões são com efeito consumidos pela sociedade exatamente como quaisquer outros bens de consumo". Os produtos dessa indústria de diversões são perecíveis, portanto precisam ser renovados. Nessa situação premente, os que produzem para os meios de comunicação de massa esgaravatam toda a gama da cultura passada e presente na ânsia de encontrar material aproveitável. Esse material, além do mais, não pode ser oferecido tal qual é; [...] deve ser preparado para consumo fácil.
Essas considerações de Arendt têm-se mostrado absolutamente justas, com o passar das décadas e os avanços das tecnologias de comunicação. A literatura, como forma de arte, tem sofrido os efeitos da nova situação. O sonho dos escritores modernistas era que a massa comesse o "biscoito fino" por eles fabricado. Infelizmente, a massa tem preferido os cookies industrializados.
Para que a literatura chegue ao grande público, promovem-se eventos literários (salões do livro, festas de premiação), nos quais autores e obras são apresentados como espetáculo. Os objetos desses eventos são, sem dúvida, legítimos e justificados. Entretanto, o público numeroso que frequenta esses eventos parece incluir menos leitores de livros do que meros espectadores e caçadores de autógrafos.
Os escritores de hoje têm uma visibilidade pessoal maior do que em épocas anteriores porque são incluídos na categoria de "celebridades", e os mais "midiáticos" têm mais chance de vender livros, independentemente do valor de suas obras. Ao mesmo tempo, nos debates teóricos, assistimos à defesa da "literatura de entretenimento", contra as exigências daqueles que ainda têm uma concepção mais alta da literatura. Estes são chamados de conservadores e elitistas. Ora, a conservação é uma atitude inerente aos conceitos de cultura, arte e de educação. Conservação não como imobilismo e fechamento ao novo, mas como conhecimento da tradição sem a qual não se pode avançar.
Obs.: Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, é uma das raras vozes femininas de destaque na filosofia do século XX.
Conservação não como imobilismo e fechamento ao novo, mas como conhecimento da tradição sem a qual não se pode avançar.
A redação que, ao substituir o segmento destacado na frase acima, não prejudica o sentido, a clareza e a correção originais é:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 49, questão nº 50, questão nº 51, questão nº 52, questão nº 54, questão nº 55.
- Amas como conhecimento da tradição, sem o que não se pode avançar.
- Bmas como conhecimento da tradição, que não pode haver avanço sem ele.
- Cmas como conhecimento da tradição, conhecimento dos quais derivam os avanços.
- Dmas como conhecimento da tradição da qual se depende para ir em frente. (alternativa correta)
- Emas como conhecimento da tradição cuja ausência impede de avançar.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave aqui é a substituição de estruturas sintáticas mantendo o sentido, a clareza e a correção gramatical. Isso envolve a escolha de pronomes relativos adequados e a reestruturação da frase de modo que a nova versão seja equivalente à original, especialmente em termos de condição ou consequência. A frase original "sem a qual não se pode avançar" expressa uma condição negativa: a ausência da tradição impede o avanço.
- (A) Incorreta: "sem o que não se pode avançar." Embora "sem o que" possa ser usado para se referir a uma ideia anterior, "a qual" na frase original se refere especificamente a "tradição" (substantivo feminino). "Sem o que" é menos preciso e mais genérico, referindo-se ao "conhecimento da tradição" como um todo, e não diretamente à "tradição" como o elemento essencial. A precisão da referência é prejudicada.
- (B) Incorreta: "que não pode haver avanço sem ele." Há um erro de concordância de gênero. Se "ele" se refere a "tradição", deveria ser "sem ela" (feminino). Se se refere a "conhecimento", a construção é menos direta e elegante que a original, além de introduzir uma ambiguidade.
- (C) Incorreta: "conhecimento dos quais derivam os avanços." O pronome "quais" está no plural, mas "tradição" é singular. Além disso, a relação de causa e efeito é alterada: a frase original fala da impossibilidade de avançar sem a tradição, enquanto esta alternativa fala que os avanços derivam do conhecimento da tradição, mudando o foco da condição para a origem.
- (D) Correta: "mas como conhecimento da tradição da qual se depende para ir em frente." Esta alternativa mantém o sentido de que a tradição é indispensável. "Da qual" retoma corretamente "tradição" (feminino singular). "Se depende para ir em frente" é uma forma equivalente e gramaticalmente correta de expressar que "sem ela não se pode avançar", mantendo a ideia de necessidade e a construção impessoal ("se depende" vs. "não se pode").
- (E) Incorreta: "cuja ausência impede de avançar." Esta alternativa é um distrator muito forte, pois o sentido é bastante similar. "Cuja ausência" retoma corretamente "tradição" e expressa a condição negativa. No entanto, a frase original usa "não se pode avançar" (uma impossibilidade impessoal), enquanto esta alternativa usa "impede de avançar" (um impedimento ativo causado pela ausência). A mudança da voz (de uma possibilidade impessoal para um agente ativo "ausência" que "impede") e da nuance (impossibilidade vs. impedimento) faz com que não seja uma equivalência perfeita em estrutura e nuance, embora o sentido seja muito próximo. A alternativa D mantém melhor a construção impessoal e a ideia de dependência/necessidade.
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Taquigrafia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.