Questão nº 16
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 16)
Uma visita
Era já no fim da tarde quando a moça − muito linda, mas muito aflita −, de nome Francisca Bastos Cordeiro, foi entrando pela porta entreaberta do chalé, seguiu direto ao quarto (antiga sala de costura da casa, ao tempo em que sua dona era viva), onde encontrou, estendido e frágil numa pequena cama de ferro, aquele homem, muito velhinho já, agonizante quase, que lhe fora bom companheiro em noites idas de sua infância, quando com ela jogava o sete e meio e lhe ensinava a recitar poemas na casa de sua avó.
− Vim vê-lo, foi dizendo a moça, inventando uma alegria na voz que lhe disfarçasse a emoção. Estou com muitas saudades suas. E o senhor, não está com saudades de mim?
− Estou, sim − disse o velho, numa voz muito cava e muito triste. Estou com saudade da vida.
No dia seguinte morria Machado de Assis. A tarde era a de 28 de setembro de 1908. A rua era a do Cosme Velho.
(Adaptado de: MELLO, Thiago de. Escritor por escritor − Machado de Assis por seus pares – 1939-2008. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2019, p. 278-279)
Está plenamente adequada a correlação entre os tempos e os modos verbais na frase:
- AA moça fora visitar o soberbo escritor em respeito à amizade que desde os tempos de sua meninice cultivasse com ele.
- BFoi tocante a sinceridade das palavras que o grande escritor Machado de Assis houvera dito assim que a moça lhe fez aquela confissão.
- CCaso não houvesse entre ambos uma antiga e sólida amizade, a cena de despedida não viesse a despertar a comoção final.
- DMal faz a moça sua declaração de saudades e já ouve do mestre as palavras gratas e melancólicas de quem da vida se despede. (alternativa correta)
- EA moça disfarçaria sua emoção inventando uma alegria que o escritor recebera com a melancólica consciência de quem esteja à morte.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A correlação verbal é a harmonia entre os tempos e modos dos verbos em uma frase ou período, garantindo que a sequência das ações e a intenção do falante (certeza, dúvida, hipótese) sejam expressas de forma lógica e gramaticalmente correta.
- (A) Incorreta: O uso de "cultivasse" (pretérito imperfeito do subjuntivo) para expressar uma ação passada e factual ("a amizade que... cultivasse com ele") é inadequado. Para indicar uma ação anterior a outra ação passada, e que é um fato, o correto seria o pretérito mais-que-perfeito do indicativo ("cultivara" ou "tinha cultivado").
- (B) Incorreta: Embora "houvera dito" (pretérito mais-que-perfeito composto) seja gramaticalmente correto para indicar anterioridade a "fez" (pretérito perfeito), a expressão "assim que" sugere uma quase simultaneidade. A combinação de "houvera dito" com "assim que" cria uma leve inadequação temporal, pois o mais-que-perfeito enfatiza uma ação já concluída antes da outra, enquanto "assim que" enfatiza a imediatez. Seria mais adequado "disse" (pretérito perfeito) para a ideia de simultaneidade ou proximidade temporal sugerida por "assim que".
- (C) Incorreta: A correlação verbal para uma condição hipotética no passado (irreal) exige o pretérito imperfeito do subjuntivo na oração condicional ("Caso não houvesse") e o futuro do pretérito do indicativo na oração principal ("não despertaria" ou "não teria vindo a despertar"). O uso de "não viesse a despertar" (pretérito imperfeito do subjuntivo) na oração principal está incorreto.
- (D) Correta: Todos os verbos estão no presente do indicativo ("faz", "ouve", "despede"), o que estabelece uma correlação perfeita para descrever ações que ocorrem de forma simultânea ou em sequência imediata no tempo presente da narração. Essa construção é plenamente adequada para criar um efeito de vivacidade e imediatismo na descrição dos eventos.
- (E) Incorreta: A frase apresenta uma inadequação na correlação temporal. "Disfarçaria" (futuro do pretérito) indica uma ação hipotética ou futura em relação a um ponto no passado. "Recebera" (pretérito mais-que-perfeito simples) indica uma ação anterior a outra ação passada. "Esteja" (presente do subjuntivo) expressa uma possibilidade no presente. A mistura desses tempos e modos não estabelece uma sequência lógica e coerente de eventos; se o escritor "recebera" (passado), a consciência deveria ser "de quem estava à morte" (passado) ou "de quem estivesse à morte" (hipotético no passado), e não "esteja" (presente).
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.