Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 2)
[Acerca da “Igualdade”]
“Liberdade, Igualdade, Fraternidade” foi o grito de guerra da Revolução Francesa. Hoje há disciplinas inteiras − ramos da filosofia, da ciência política e dos estudos jurídicos − que têm a “igualdade” como tema central de estudos. Todos concordam que a igualdade é um valor; ninguém parece concordar quanto ao que se refere o termo. Igualdade de oportunidades? Igualdade de condições? Igualdade formal perante a lei?
Estaremos falando de uma ideologia, a crença de que todos na sociedade deveriam ser iguais − claro que não em todos os aspectos, mas nos mais importantes? Ou será uma sociedade em que as pessoas são efetivamente iguais? O que isso significaria de fato, na prática, em ambos os casos? Que todos os membros da sociedade têm igual acesso à terra, ou tratam uns aos outros com igual dignidade, ou são igualmente livres para expor suas opiniões em assembleias públicas?
A igualdade seria o apagamento do indivíduo ou a celebração do indivíduo? Numa sociedade, por exemplo, em que os mais poderosos são tratados como divindades e tomam as decisões mais importantes, é possível falar em igualdade? E as relações de gênero? Muitas sociedades tratadas como “igualitárias” na verdade têm seu igualitarismo restrito aos homens adultos. Em casos assim, podemos falar em igualdade de gêneros?
Como não existe nenhuma resposta clara e consensual a questões desse tipo, o uso do termo “igualitário” tem levado a discussões infindáveis. Para alguns teóricos do século XVII, a igualdade se manifestava no estado da Natureza. Igualdade, pois, seria um termo definido por omissão: identificaria uma humanidade que pudesse estar livre depois de removidas todas as armadilhas da civilização. Povos “igualitários” seriam, pois, aqueles sem príncipes, sem juízes, sem inspetores, sem sacerdotes, possivelmente sem cidades, sem escrita ou sequer agricultura. Seriam sociedades de iguais apenas no sentido estrito de que estariam ausentes todos os sinais mais evidentes de desigualdade.
Não há dúvida, pensando-se sempre no ideal de “igualdade”, de que algo deu muito errado no mundo. Uma ínfima parte da população controla o destino de quase todos os outros, e de uma maneira cada vez mais desastrosa.
(Adaptado de: GRAEBER, David, e WENGROW, David. O despertar de tudo − Uma nova história da humanidade. Trad. Denise Bottmann e Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 91 a 94, passim)
Segundo alguns teóricos do século XVII (4º parágrafo), a igualdade
- Asó ocorreria no caso de supressão do que consideravam obstáculos criados pela própria civilização. (alternativa correta)
- Bseria alcançada somente quando os homens aperfeiçoassem com todo o rigor suas mais caras instituições.
- Cteria alcançado seu esplendor ao tempo em que o cultivo da natureza inspirava a conduta social de todos.
- Dteria se tornado um valor abstrato por conta das revoluções que suprimiram suas formas objetivas de vigência.
- Econstituiria um ideal tão alto que será preciso aguardar a ocasião historicamente propícia para sua efetivação.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A igualdade, para alguns teóricos do século XVII, era entendida como um estado natural da humanidade, que só poderia ser alcançado pela ausência ou remoção de elementos e estruturas criadas pela civilização.
- (A) Correta: Segundo o texto, para esses teóricos, a igualdade "se manifestava no estado da Natureza" e identificava uma humanidade "livre depois de removidas todas as armadilhas da civilização", como príncipes, juízes e outras instituições.
- (B) Incorreta: A ideia central é a remoção das instituições da civilização, não o aperfeiçoamento delas.
- (C) Incorreta: O texto fala em "estado da Natureza" e até em sociedades "sem agricultura", o que contradiz a ideia de "cultivo da natureza" inspirando a conduta social.
- (D) Incorreta: O parágrafo descreve a definição de igualdade para esses teóricos, não sua transformação em um valor abstrato por conta de revoluções.
- (E) Incorreta: A igualdade é apresentada como um estado que se manifestaria pela ausência de elementos civilizatórios, não como um ideal futuro a ser aguardado.
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.