Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 13)
Encenação da morte
A vida nos quer, a morte nos quer. Somos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam. Esse equilíbrio não é estável. Amplo, diverso e elástico é o campo de força da vida, e vale a mesma coisa para o campo da morte. Se ficamos facilmente deprimidos ou exaltados é em razão das oscilações de intensidade desses dois campos magnéticos, sendo o tédio o relativo equilíbrio entre os dois.
Às vezes é mais intensa a pressão da vida, outras vezes é mais intensa a pressão da morte. Não se quer dizer com isso que a exaltação seja a morte e a depressão seja a vida. Há exaltações e exultações que se polarizam na morte, assim como há sistemas de depressão que gravitam em torno da vida. O estranho, do ponto de vista biológico, é que somos medularmente solitários com ambos os estados de imantação mais intensa, os da vida e os da morte. Não aproveitamos apenas a vida, mas usufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem.
Ganhei várias vezes da morte, isto é, inúmeras vezes os papéis que a morte representou para mim não chegaram a ser convincentes ou não chegaram a fazer grande sucesso. Matei várias mortes. (...) Mas outro dia dei dentro de mim com uma morte tão madura, tão forte, tão irrespondível, tão parecida comigo que fiquei no mais confuso dos sentimentos. Esta eu não posso matar, esta é a minha morte. O Vinícius de Moraes, que entende muito de morte, disse que nesse terreno há sempre margem de erro, e que talvez eu tenha ainda de andar um bocado mais antes de encontrar a minha morte. Pode ser. Não sei. Quem sabe?
(Adaptado de CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 246-248, passim)
Ao tratar da morte, o cronista atribui à morte um poder de imantação tal que acaba por identificar a morte como uma força que, paradoxalmente, exerce uma estranha atração até mesmo sobre os que temem a morte.
Evitam-se as viciosas repetições do período acima substituindo-se os elementos sublinhados, na ordem dada, por:
- Aatribui-lhe − identificá-la − a temem (alternativa correta)
- Blhe atribui − identificar a ela − lhe temem
- Catribui-lhe − a identificar − temem-lhe
- Datribui nela − lhe identificar − temem-na
- Ea atribui − identificar-lhe − a temem
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A colocação pronominal define a posição dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, nos, vos, o, a, os, as, lhe, lhes) em relação ao verbo, podendo ser antes (próclise), depois (ênclise) ou no meio (mesóclise). A escolha depende da presença de fatores atrativos, do tempo verbal e da regência do verbo.
- (A) Correta:
atribui à morte->atribui-lhe: O verbo "atribuir" no sentido de "dar, conferir" é transitivo direto e indireto (atribuir algo a alguém/algo). Aqui,à morteé objeto indireto, substituído corretamente porlhe. Não há fator atrativo para próclise, então a ênclise (atribui-lhe) é a forma padrão e correta.identificar a morte->identificá-la: O verbo "identificar" é transitivo direto (identificar algo).a morteé objeto direto, substituído pora. Como o verbo está no infinitivo (identificar) e termina emr, o pronomease transforma emlae oré suprimido, resultando emidentificá-la. A ênclise é a colocação padrão para o infinitivo quando não há fator atrativo.temem a morte->a temem: O verbo "temer" é transitivo direto (temer algo).a morteé objeto direto, substituído pora. No contexto "os que temem a morte", o pronome relativo "que" é um fator atrativo, exigindo a próclise (que a temem).
- (B) Incorreta:
lhe atribuiestá incorreto porque não há fator atrativo para próclise antes de "atribui".identificar a elausa um pronome tônico (ela) com preposição, que não é a substituição pronominal átona esperada.lhe tememestá incorreto porque "temer" é transitivo direto, elheé pronome de objeto indireto. - (C) Incorreta:
a identificarestá incorreto porque não há fator atrativo para próclise antes do infinitivo "identificar".temem-lheestá incorreto porque "temer" é transitivo direto, elheé pronome de objeto indireto. - (D) Incorreta:
atribui nelaestá incorreto porque a regência de "atribuir" é "a algo", não "em algo".lhe identificarestá incorreto porque "identificar" é transitivo direto, elheé pronome de objeto indireto.temem-naseria ênclise, mas o pronome relativo "que" exige a próclise (que a temem). - (E) Incorreta:
a atribuiestá incorreto porquea morteé objeto indireto, eaé pronome de objeto direto.identificar-lheestá incorreto porque "identificar" é transitivo direto, elheé pronome de objeto indireto.
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.