Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 12)
Encenação da morte
A vida nos quer, a morte nos quer. Somos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam. Esse equilíbrio não é estável. Amplo, diverso e elástico é o campo de força da vida, e vale a mesma coisa para o campo da morte. Se ficamos facilmente deprimidos ou exaltados é em razão das oscilações de intensidade desses dois campos magnéticos, sendo o tédio o relativo equilíbrio entre os dois.
Às vezes é mais intensa a pressão da vida, outras vezes é mais intensa a pressão da morte. Não se quer dizer com isso que a exaltação seja a morte e a depressão seja a vida. Há exaltações e exultações que se polarizam na morte, assim como há sistemas de depressão que gravitam em torno da vida. O estranho, do ponto de vista biológico, é que somos medularmente solitários com ambos os estados de imantação mais intensa, os da vida e os da morte. Não aproveitamos apenas a vida, mas usufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem.
Ganhei várias vezes da morte, isto é, inúmeras vezes os papéis que a morte representou para mim não chegaram a ser convincentes ou não chegaram a fazer grande sucesso. Matei várias mortes. (...) Mas outro dia dei dentro de mim com uma morte tão madura, tão forte, tão irrespondível, tão parecida comigo que fiquei no mais confuso dos sentimentos. Esta eu não posso matar, esta é a minha morte. O Vinícius de Moraes, que entende muito de morte, disse que nesse terreno há sempre margem de erro, e que talvez eu tenha ainda de andar um bocado mais antes de encontrar a minha morte. Pode ser. Não sei. Quem sabe?
(Adaptado de CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 246-248, passim)
Ao longo do texto o autor se vale de vários paradoxos, tal como o que ocorre na seguinte formulação:
- ASomos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam.
- Boscilações de intensidade desses dois campos magnéticos.
- CÀs vezes é mais intensa a pressão da vida
- Dusufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem. (alternativa correta)
- EO Vinícius de Moraes (...) disse que nesse terreno há sempre margem de erro.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Um paradoxo é uma figura de linguagem que apresenta ideias contraditórias ou aparentemente ilógicas, mas que, ao serem analisadas, revelam um sentido profundo ou uma verdade. É uma contradição que faz sentido.
A) Incorreta: Esta frase descreve uma tensão entre forças opostas, o que é uma ideia complexa, mas não uma contradição em si.
B) Incorreta: Descreve a variação de intensidade de "campos magnéticos" (metáfora para vida e morte), o que é uma observação sobre dinamismo, não uma contradição.
C) Incorreta: É uma afirmação simples sobre a intensidade da "pressão da vida" em certos momentos, sem apresentar ideias contraditórias.
D) Correta: A frase é paradoxal porque sugere que podemos "usufruir das experiências da morte" (algo que normalmente associamos ao fim da vida e à perda) sob a condição de que essas experiências "não nos matem". Há uma contradição aparente: como se pode ter uma "experiência da morte" e ainda assim não morrer e até mesmo usufruir dela? Isso aponta para um sentido figurado ou metafórico da morte (como perdas, superações, transformações) que, paradoxalmente, pode enriquecer a vida.
E) Incorreta: Esta é uma citação que expressa a ideia de incerteza ("margem de erro"), mas não contém uma contradição interna que a torne um paradoxo.
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.