Questão nº 67
Questão de Administração · CESGRANRIO BNDES 01/2024 (nº 67)
Uma das questões mais complexas relacionadas ao sistema financeiro está associada aos fatores determinantes das taxas de juros nas economias capitalistas. Na atualidade, a maioria dos Bancos Centrais consegue exercer o controle sobre a taxa básica de juros de curto prazo, que é considerada a taxa de política monetária (policy-rate), mas não necessariamente sobre as taxas de juros de mercado, notadamente as de longo prazo. No trecho seguinte, John Maynard Keynes, um dos formuladores da teoria da taxa de juros, faz um comentário crítico a respeito do tema.
A teoria ortodoxa da taxa de juros pertence, na verdade, a um estágio de pressupostos de abstrações econômicas diferentes do que atualmente estamos utilizando. Isto porque [segundo Keynes] a taxa de juros e a eficiência marginal do capital referem-se particularmente ao caráter indefinido de expectativas reais; elas resumem o efeito, sobre as decisões de mercado dos homens, de todo tipo de dúvidas vagas e de flutuantes estados de confiança e coragem. Ou seja, elas pertencem a um estágio de nossa teoria no qual não estamos mais supondo um futuro definido e calculável. A teoria ortodoxa, por outro lado, refere-se a um mundo simplificado, em que sempre existe pleno-emprego e do qual a dúvida e as flutuações de confiança são excluídas, não havendo ocasião para manter saldos inativos, e no qual os preços devem constantemente estar num nível que, apenas para satisfazer o motivo transacional e sem deixar a qualquer excedente ser absorvido pelos motivos de precaução e de especulação, faz com que o estoque total de moeda valha uma taxa de juros idêntica à eficiência marginal do capital correspondente ao pleno-emprego.
De acordo com a teoria proposta por Keynes, as taxas de juros de mercado são fortemente condicionadas pelo(a)
- Aequilíbrio entre a poupança e o investimento
- Bequilíbrio entre a oferta de moeda e a demanda de moeda para fins de transação
- Cestoque de moeda existente
- Dgrau de preferência pela liquidez (alternativa correta)
- Ecapacidade de previsibilidade futura do mercado
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: Para Keynes, a taxa de juros não é o prêmio por “esperar” (poupar), mas sim a recompensa por abrir mão de liquidez — ou seja, por emprestar dinheiro e ficar sem ele disponível por um tempo. Quanto maior o medo do futuro (incerteza), maior a preferência por segurar moeda “na mão”, e maior será o juro exigido para soltar esse dinheiro.
- (A) Incorreta: Na visão keynesiana, a taxa de juros é determinada no mercado monetário (moeda), não no mercado real de poupança e investimento. A poupança não “cria” juros; ela apenas ajusta a renda via multiplicador.
- (B) Incorreta: O equilíbrio entre oferta e demanda de moeda importa, mas a demanda relevante não é só a transacional. A armadilha aqui é reduzir a teoria keynesiana ao motivo transação, ignorando os motivos precaução e especulação — que são o coração da preferência pela liquidez.
- (C) Incorreta: O estoque de moeda (oferta) é apenas um dos lados da equação. Sozinho, ele não condiciona a taxa; é a interação com a demanda por moeda (liquidez) que define o juro. A banca tenta te fazer achar que “mais moeda = juro baixo” automaticamente, mas Keynes exige analisar o lado da demanda.
- (D) Correta: Exatamente o que o texto afirma: a taxa de juros resume “dúvidas vagas e flutuações de confiança”. O grau de preferência pela liquidez (quanto as pessoas valorizam ter dinheiro líquido vs. aplicado) é o fator central que condiciona as taxas de mercado, especialmente as de longo prazo, que dependem de expectativas incertas.
- (E) Incorreta: Keynes critica justamente o mundo “definido e calculável” da teoria ortodoxa. Se houvesse previsibilidade perfeita, não haveria motivo para segurar moeda inativa (especulação) e a taxa seria outra. A incerteza é o ponto de partida, não a previsibilidade.
Fonte: CESGRANRIO BNDES 01/2024 Analista - Administração (Caderno Prova 1). Reproduzida para fins de estudo.