Questão nº 35
Questão de Medicina · CEBRASPE TCE-MG 2025 (nº 35)
Paciente do sexo feminino, com 58 anos de idade, sem antecedentes patológicos, refere, em consulta médica, palpitações taquicárdicas de início súbito há quatro horas, após ingesta abusiva de álcool no dia anterior. Nega outros sinais ou sintomas. Ao exame físico, mostra-se eupneica e acianótica, em bom estado geral, com pressão arterial de 118 mm/Hg × 74 mm/Hg, frequência cardíaca de aproximadamente 138 bpm e ritmo cardíaco irregular em dois tempos e sem sopros. O restante do exame físico não revela anormalidade. O seguinte eletrocardiograma (com calibração padrão) foi realizado na chegada ao pronto-socorro.
No caso clínico 10A1-II, a terapêutica mais apropriada, conforme a Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial de 2025, é
- Aa aplicação de adenosina por via endovenosa.
- Ba introdução de deslanosídeo venoso.
- Ca introdução de benzodiazepínico e repouso.
- Do controle da frequência cardíaca e a administração de propafenona. (alternativa correta)
- Ea introdução de apixabana associada ao metoprolol, e cardioversão elétrica após três semanas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: Na fibrilação atrial (FA) — ritmo cardíaco caótico e irregular, muito comum após ingestão alcoólica em pacientes sem cardiopatia estrutural —, quando o paciente está estável (sem dor torácica, sem hipotensão, sem sinais de insuficiência cardíaca), a conduta inicial é controle da frequência cardíaca (fármacos que "seguram" os batimentos, como betabloqueadores) e, se o início for recente (geralmente < 48h), pode-se tentar reverter o ritmo com um antiarrítmico como a propafenona ("pílula na bolsa"). O que NÃO se faz é cardioversão elétrica imediata sem preparo nem drogas que não têm indicação nesse cenário.
- (A) Incorreta: A adenosina serve para taquicardias supraventriculares por mecanismo de reentrada (como a taquicardia por reentrada nodal), não para FA — ela não reverte nem controla a FA e pode até causar instabilidade.
- (B) Incorreta: O deslanosídeo (digitálico venoso) é reservado para controle de frequência em situações específicas (ex.: FA com insuficiência cardíaca), não é a primeira escolha aqui e não reverte o ritmo; não é a terapêutica apropriada neste caso.
- (C) Incorreta: Benzodiazepínico e repouso tratam abstinência alcoólica ou ansiedade, não a FA — a paciente tem uma arritmia documentada no ECG que exige tratamento específico.
- (D) Correta: Paciente estável, FA de início recente (4 horas) após álcool: conduta é controle da frequência cardíaca (ex.: metoprolol) associado à propafenona para tentar reversão química ao ritmo sinusal — estratégia "pill-in-the-pocket" validada para FA recente em paciente sem cardiopatia estrutural, conforme a Diretriz Brasileira de FA.
- (E) Incorreta: Apixabana + metoprolol com cardioversão elétrica após 3 semanas é o esquema para FA de duração incerta ou > 48h, quando é preciso anticoagular antes de cardioverter — aqui a FA tem apenas 4 horas, então não se espera 3 semanas. Essa é a pegadinha da banca: mistura o cenário de "FA crônica/indeterminada" com o de "FA aguda recente", induzindo o aluno a achar que precisa anticoagular e postergar a cardioversão.
Fonte: CEBRASPE TCE-MG 2025 Médico. Reproduzida para fins de estudo.
