Questão nº 69
Questão de Medicina Legal · FGV PCERJ 2021 (nº 69)
Mulher de 40 anos comparece ao exame de corpo de delito em investigação de crime sexual. Conta que, estando hospedada na casa de amigos, na noite anterior, acreditando tratar-se de seu marido na cama, já tarde da noite, teve relação sexual vaginal com outro homem, somente percebendo o engano após o fato, tendo prontamente prestado queixa na Delegacia de Polícia.
Esse breve relato do ocorrido permite ao perito pensar na possibilidade de:
- Aausência de crime sexual real;
- Bcaso típico de estupro;
- Ccrime de assédio sexual;
- Dviolação sexual mediante fraude; (alternativa correta)
- Eforma de estupro de vulnerável.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave aqui é a validade do consentimento em crimes sexuais. Para que o consentimento seja válido, a pessoa precisa saber com quem está se relacionando e qual é a natureza do ato. Se o consentimento é obtido por meio de engano sobre a identidade do parceiro, ele é viciado.
- (A) Incorreta: Há um crime sexual, pois a mulher não consentiu em ter relação com aquele homem, embora tenha consentido no ato sexual em si.
- (B) Incorreta: O estupro (Art. 213 CP) exige violência, grave ameaça ou qualquer outro meio que reduza ou impeça a capacidade de resistência da vítima. No caso, não houve violência nem ameaça, e a mulher não teve sua capacidade de resistência impedida; ela agiu voluntariamente, mas sob erro essencial sobre a identidade do parceiro. A armadilha é confundir qualquer ato sexual sem consentimento válido com estupro, mas a lei distingue as formas de viciar o consentimento.
- (C) Incorreta: Assédio sexual (Art. 216-A CP) envolve constrangimento com o fim de obter vantagem ou favor sexual, geralmente em relação de hierarquia ou ascendência, o que não se aplica ao cenário.
- (D) Correta: A violação sexual mediante fraude (Art. 217-A, § 1º, CP) ocorre quando o agente tem conjunção carnal ou pratica outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. O engano sobre a identidade do parceiro é um caso clássico de fraude que vicia o consentimento.
- (E) Incorreta: Estupro de vulnerável (Art. 217-A CP, caput) se aplica a vítimas menores de 14 anos, ou que não podem oferecer resistência por doença, deficiência mental ou outra causa, o que não é o caso da mulher de 40 anos.
Fonte: FGV PCERJ 2021 Perito Legista (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.