Questão nº 94

Questão de Direito Civil, Empresarial e Relação de Consumo · FGV ALERJ 2016 (nº 94)

FGV2016ProcuradorDireito Civil, Empresarial e Relação de Consumo
Gabarito: Cver comentário ↓

Semprônio morre sem deixar herdeiros legitimários. Em seu testamento, deixa seu único bem, um imóvel rural de 40 (quarenta) hectares, para Túlio, que renuncia à herança. Duas semanas após o falecimento de Semprônio, Caio invade o imóvel e nele passa a residir com sua família, cultivando a terra para seu sustento. Oito anos após o falecimento de Semprônio, depois de praticadas as diligências de arrecadação, ultimado o inventário e realizadas as formalidades exigidas, a herança é declarada vacante. O Estado, então, pretende obter a posse do bem imóvel que teria adquirido.

Sobre a questão, é correto afirmar que:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Conceito-chave: Herança jacente é a fase provisória em que o patrimônio do falecido fica aguardando a localização de herdeiros ou a validade do testamento. Só depois de esgotadas todas as buscas e cumpridas as formalidades legais é que o juiz declara a vacância, momento em que o bem passa a pertencer ao Estado (município, DF ou União). Enquanto não há essa declaração judicial, o bem é privado e, portanto, pode ser usucapido por quem exerce posse mansa, pacífica e com animus domini pelo prazo legal.

  • (A) Incorreta: A renúncia de Túlio não transfere a administração ao Estado; ela apenas faz com que a herança seja tratada como jacente, com curador nomeado para representar os herdeiros incertos, não o Estado. Além disso, a nomeação de curador não impede a posse ad usucapionem, pois o bem continua privado até a sentença de vacância.
  • (B) Incorreta: A função social da posse é um princípio relevante, mas não é o fundamento correto aqui. O que protege Caio é o fato de que, até a declaração de vacância, o imóvel é particular e pode ser usucapido; a função social apenas reforça o caráter da posse, mas não é o instituto que garante o direito.
  • (C) Correta: O bem só é devolvido ao Estado com a sentença declaratória de vacância. Até esse ato, o patrimônio integra herança jacente, permanecendo privado e, portanto, suscetível de usucapião. Caio, ao ocupar o imóvel por 8 anos, com cultivo e moradia (posse com função social), preenche os requisitos da usucapião especial rural (art. 191, CF), adquirindo a propriedade antes da declaração de vacância.
  • (D) Incorreta: A afirmação de que "jamais exerceu-se posse" é falsa. Caio exerceu posse real, com intenção de dono (animus domini), e o bem não era público antes da vacância; era herança jacente, de natureza privada. A detenção só ocorreria se houvesse relação de subordinação ou permissão, o que não é o caso.
  • (E) Incorreta: A primeira parte está correta (a posse de Caio é ad usucapionem), mas a conclusão é errada. Não há "prevalência do interesse público" que justifique a imissão do Estado na posse após a usucapião consumada, pois o direito de propriedade de Caio já se constituiu por sentença declaratória (ou pela aquisição originária), e o Estado não pode retroagir para retomar o bem.

Armadilha da banca na letra E: Ela mistura uma verdade (a posse é ad usucapionem) com uma falsa exceção (interesse público). O aluno que sabe o conceito de vacância pode marcar E por achar que a demora do inventário justifica a perda do direito de Caio. Mas a lei não prevê essa exceção: a usucapião corre contra o espólio, e a demora processual não prejudica o possuidor. A banca testa se você sabe que a vacância é marco temporal e que, antes dela, o bem é privado e usucapível.

Fonte: FGV ALERJ 2016 Procurador (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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