Questão nº 93

Questão de Direito Civil, Empresarial e Relação de Consumo · FGV ALERJ 2016 (nº 93)

FGV2016ProcuradorDireito Civil, Empresarial e Relação de Consumo
Gabarito: Ever comentário ↓

Tício, costureiro renomado, celebra, em dezembro de 1998, contrato de compra e venda para a aquisição de equipamento importado, de alta tecnologia, destinado à confecção. O valor avençado com o vendedor do equipamento foi de US$ 50.000,00 (cinquenta mil dólares americanos), parcelado em 5 (cinco) prestações de US$ 10.000,00 (dez mil dólares americanos) cada uma. A primeira, com vencimento 2 (dois) meses após a assinatura do contrato, e a última, a 10 (dez) meses desta. Diante da maxidesvalorização do real em face do dólar, ocorrida a partir de janeiro de 1999, Tício paga apenas a primeira parcela, ingressando em seguida com ação judicial pleiteando a revisão do contrato mediante a aplicação da teoria da imprevisão, para a alteração das cláusulas de modo a converter as parcelas para moeda nacional, com observância do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC.

Seguindo a orientação consolidada no Superior Tribunal de Justiça, quanto à pretensão de Tício, é correto afirmar que:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Conceito-chave: A teoria da imprevisão serve para revisar contratos quando um evento imprevisível e extraordinário (como uma guerra ou uma crise súbita) torna a prestação de uma parte excessivamente onerosa. Porém, ela não se aplica quando o risco que se concretizou já era previsível e inerente ao tipo de contrato — como a variação cambial em contratos firmados em dólar, especialmente em um país com histórico de inflação alta e oscilações cambiais como o Brasil.

  • (A) Incorreta: A revisão contratual não é uma restrição absoluta à autonomia da vontade; ela é admitida em situações excepcionais, mas o fundamento aqui não é esse, e sim a previsibilidade do risco cambial.
  • (B) Incorreta: A função social do contrato não impõe a manutenção de cláusulas em moeda estrangeira; ela busca o equilíbrio, mas, no caso, o desequilíbrio não decorre de fato imprevisível.
  • (C) Incorreta: O princípio do equilíbrio contratual exige que o desequilíbrio seja causado por fato imprevisível e extraordinário; a variação cambial em contrato em dólar não é imprevisível, pois o risco cambial é inerente ao negócio.
  • (D) Incorreta: O artigo 317 do Código Civil (e a teoria da imprevisão) exige que a mudança de circunstâncias seja imprevisível; a maxidesvalorização do real, embora grave, era um risco conhecido e assumido por quem contrata em moeda estrangeira no Brasil.
  • (E) Correta: A variação cambial integra o risco objetivo do contrato firmado em dólar; quem contrata em moeda estrangeira assume o risco da flutuação cambial, e o histórico inflacionário brasileiro da década de 1990 tornava essa oscilação previsível, afastando a teoria da imprevisão.

Armadilha da banca na alternativa (D): Ela é a mais tentadora porque cita o artigo 317 do Código Civil e o conceito de "mudança superveniente das circunstâncias". Porém, a banca exige que você perceba que a imprevisibilidade é requisito essencial — e a variação cambial em contrato em dólar, no Brasil, não é imprevisível, pois o histórico inflacionário e as crises cambiais eram conhecidos. O aluno que decora o conceito, mas não entende a exceção do risco assumido, cai na pegadinha.

Fonte: FGV ALERJ 2016 Procurador (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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