Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT17 2022 (nº 14)
Atenção: Para responder às questões de números 13 a 18, baseie-se no texto abaixo.
Retrato de um amigo
A cidade que era amada por nosso amigo continua a mesma: há algumas mudanças, mas coisa pouca. Nossa cidade se parece – só agora nos damos conta disso – com o amigo que perdemos e que a amava; ela é, assim como ele era, intratável em sua operosidade febril e obstinada; e é ao mesmo tempo desinteressada e disposta ao ócio e ao sonho.
Na cidade que se parece com ele, sentimos nosso amigo reviver por todos os lados: em cada esquina e em cada canto achamos que de repente possa aparecer sua alta figura de capote escuro cintado, o rosto escondido na gola, o chapéu enterrado nos olhos. O amigo media a cidade com seu longo passo, obstinado e solitário. Ele entocava nos cafés mais apertados e fumarentos, enchia folhas e folhas com sua caligrafia larga e rápida, e celebrava a cidade em seus versos.
Seus versos ressoam em nossos ouvidos quando retornamos à cidade ou quando pensamos nela. Nosso amigo vivia na cidade como um adolescente e até o final viveu assim. Seus dias eram longuíssimos como os dos adolescentes, e cheios de tempo; sabia achar espaço para estudar e escrever, para ganhar a vida e vadiar; e nós, que resfolegávamos divididos entre preguiça e produtividade, perdíamos horas na incerteza de decidirmos se éramos preguiçosos ou produtivos. Mesmo sua tristeza nos parecia meio juvenil, como a melancolia voluptuosa e distraída do rapaz que ainda não tocou a terra e se move no mundo árido e solitário dos sonhos.
Ao considerar as relações entre seu amigo e a sua cidade, a autora recorre a alguns paradoxos, como o que ocorre entre os segmentos:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 13, questão nº 15, questão nº 16, questão nº 17, questão nº 18.
- Ahá algumas mudanças // só agora nos damos conta (1º parágrafo)
- Boperosidade febril // disposta ao ócio (1º parágrafo) (alternativa correta)
- Co amigo que perdemos // e que a amava (1º parágrafo)
- Denchia folhas e folhas // caligrafia larga e rápida (2º parágrafo)
- Eainda não tocou a terra // mundo árido e solitário dos sonhos (3º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Paradoxo é uma figura de linguagem que apresenta ideias aparentemente contraditórias, mas que, ao serem analisadas em conjunto, revelam uma verdade profunda ou um sentido inesperado. É a coexistência de opostos.
- (A) Incorreta: "há algumas mudanças" e "só agora nos damos conta" não são ideias contraditórias; uma afirmação descreve um fato e a outra, o momento da percepção desse fato.
- (B) Correta: "operosidade febril" (intensa atividade) e "disposta ao ócio" (inclinação à inatividade) são características opostas que, segundo o texto, coexistem na cidade e no amigo ("e é ao mesmo tempo"), configurando um paradoxo.
- (C) Incorreta: "o amigo que perdemos" (referência à morte) e "e que a amava" (referência a um sentimento passado) não são contraditórios; a perda não anula o amor que existiu.
- (D) Incorreta: "enchia folhas e folhas" (quantidade de escrita) e "caligrafia larga e rápida" (estilo da escrita) são descrições complementares, não opostas. Uma caligrafia assim facilitaria preencher muitas folhas.
- (E) Incorreta: "ainda não tocou a terra" (desconexão da realidade) e "mundo árido e solitário dos sonhos" (descrição desse mundo onírico) não são contraditórios. Uma pessoa desconectada da realidade pode, sim, viver em um mundo de sonhos que é descrito como árido e solitário. A armadilha aqui é que "sonhos" pode ter uma conotação positiva, mas o adjetivo "árido e solitário" especifica a natureza desses sonhos, não criando uma contradição com a ideia de não "tocar a terra".
Fonte: FCC TRT17 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.